É momento de respirar fundo

Imagem: Cottonbro, Pexels

A pandemia se estende, pois atende a interesses diversos. Vemos muitas pessoas se entregarem aos riscos, mesmo algumas que defendiam o isolamento até recentemente. Junte-se a isso toda a “boiada” que estão passando, valendo-se do contexto: destruição da Amazônia e do Pantanal, sobrecarga de impostos, “reforma” administrativa, preços altos, inflação, desemprego etc.

Em Ourinhos, vemos o prefeito decretar a liberação quase irrestrita de atividades, como se nada estivesse acontecendo. A esquerda partidária parece desarticulada e não consegue lançar candidato à prefeitura, o que talvez desse algum alento.

Todas essas questões macrossociais, atingem a nós individualmente. A ideologia dominante insiste na primazia do indivíduo, mas as vida concreta revela impiedosamente que o que acontece em nível social nos atinge, inclusive no que diz respeito a nosso estado emocional.

Esse estado é: estamos em cacos.

Quando nos sentimos tão frágeis e atacados, como nesse contexto único em que vivemos, acabamos por agir de formas diversas, geralmente autodestrutivas ou voltando uma certa agressividade a outras pessoas. Como não conseguimos mudar a realidade que nos aflige, queremos achar culpa, seja em si mesmo, seja em outros. Quaisquer falhas passam a ganhar vulto. As tensões crescem e podem acontecer os rompimentos e cisões.

Por mais difícil que seja, é momento de respirar fundo. A pandemia não dificulta a respiração apenas das vítimas, deixa-nos a todos sem fôlego. É preciso retomá-lo e isso não se faz sozinho.

Da mesma forma que nossos problemas tem uma relação de constante reciprocidade com fatores sociais, as soluções também funcionam dessa forma. A tentação para buscarmos apenas soluções individuais é grande. Vemo-nos não atendidos em nossas reivindicações, em nossa sede de justiça, e acreditamos ser o caminho romper com tudo e todos.

Quaisquer soluções para o caos em que nos encontramos passa pela coletividade. Não uma grande e romântica coletividade, que subitamente chegaria à tomada de consciência. Talvez seja o caso de pensarmos em coletividades menores, mais próximas, como redes de apoio, que possam adquirir relativa independência da máquina estatal, que se tornou máquina de morte.

Se os partidos dos quais esperávamos respostas não estão agindo como gostaríamos, pode ser momento de compreendermos que é nossa ação que transforma nossa rua, nosso bairro, a vida da vizinhança. Não falo aqui no sentido de rompermos completamente com partidos, pois dependemos de lideranças políticas progressistas para garantir políticas públicas minimamente humanas (como os governos estão lidando com a pandemia é demonstração disso). O que precisamos é agir para cuidarmos uns dos outros.

Não é suficiente ser de esquerda “de coração”. É preciso ser de ação. Agir em nível macrossocial é coisa para poucos indivíduos, grandes lideranças construídas com muita luta e orquestração de muitas coletividades. Podemos nós, naquilo que está a nosso alcance, começar a mudar.

 

Luiz Bosco S. Machado Jr., psicólogo e professor universitário

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