Lula era “o principal alvo” da Lava Jato, diz ex-Odebrecht sobre pressão para delatar ex-presidente

 

Em entrevista ao filme Amigo Secreto, da cineasta Maria Augusta Ramos, o ex-diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar, que foi preso pela Operação Lava Jato e forçado a fazer delação premiada, afirma que foi pressionado para comprometer o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu acordo de colaboração. O depoimento gravado confirma que Lula foi transformado no “principal alvo” dos procuradores da força-tarefa coordenada por Deltan Dallagnol, com o ex-juiz Sergio Moro à frente.

O executivo foi preso em 2015. Em princípio passaria cindo dias detido, mas teve a prisão transformada de temporária em preventiva – sem data para que fosse solto –, após ser citado em delações do engenheiro e ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Youssef, de ser operador de propinas da empreiteira.

“Era uma pressão em cima da gente. E estava nítido que a questão era com o Lula”, diz o ex-executivo da empreiteira ao filme. De acordo com Alexandrino, os procuradores insistiam em perguntas sobre “o irmão do Lula, o filho do Lula, não sei o quê do Lula, as palestras do Lula”. Porém, se o ex-presidente não não era citado, ele voltava para a cela.

Nós levávamos bola preta, ‘ah, você não falou o suficiente’. Vai e volta, vai e volta…’Senão [diziam os interrogadores], não aceitamos o teu acordo”, prossegue o ex-diretor, que passou a ser apontado pelos procuradores como a principal ligação da Odebrechet com o PT.

Vaza Jato

Os relatos de Alexandrino Alencar coincidem com reportagens publicadas à época, que diziam que o Ministério Público Federal em Curitiba resistia em aceitar a delação do então executivo já que ele não citava Lula, nem outros políticos, em suas revelações. Só depois de ceder, diz ao filme, os investigadores concordaram em assinar com ele um acordo de colaboração premiada.

Em sua delaração, entre outras coisas, Alexandrino listou o que teriam sido gastos da empreiteira com reformas do sítio em Atibaia supostamente para atender o ex-presidente Lula, em troca de benefícios e vantagens em licitações de obras públicas. O depoimento do ex-diretor à Lava Jato foi fundamental para que Lula fosse condenado por Sergio Moro, sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro.

Aécio tudo bem

Ainda no depoimento incluído em Amigo Secreto, Alexandrino afirma que outros executivos de empreiteiras sofreram pressão para mentir aos procuradores para que firmar a colaboração premiada e, assim, diminuir suas penas de prisão. E que foram feitas denúncias de pagamento de propinas para inúmeros políticos de diversos partidos.

Além disso, afirma que sabe de casos de pessoas que foram dispensadas dos depoimentos quando citaram o tucano Aécio Neves em suas delações. Mas que mas o foco da Lava Jato era apenas em Lula.

“Não vou dizer o nome do santo. Mas tem colega meu que foi preso em Curitiba, chegou lá, o pessoal [investigadores] começou a perguntar sobre caixa dois. Ele [o colega de Alexandrino] falou: ‘Isso aqui é para o Aécio Neves’. Na hora em que ele falou, eles [interrogadores] se levantaram e soltaram ele. Isso é Lava Jato? Isso é um sistema anticorrupção? Ou é uma questão direcionada?”.

Alexandrino Alencar diz ainda estar convencido de que foi investigado porque o objetivo da Lava Jato era chegar a Lula. Ele afirma que a decisão de integrantes da Odebrecht de aderir a acordos de colaboração, lembrando a pressão sofrida para incriminar o ex-presidente, foi “traumático, muito duro”, mas que foi incontornável. “Não adiantava. Tem que ir junto.”

Juiz ladrão

No processo que contou com a delação de Alexandrino, no chamado caso do sítio de Atibaia, o ex-presidente Lula acabou sendo condenado em 2019 a 12 anos e 11 meses de prisão.

Porém, nos desdobramentos das investigações a partir dos áudios vazados de conversas entre os procuradores e destes com Sergio Moro, foram expostas a ilicitude e a falsidade de várias das provas incorporadas aos processos. Em razão disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou o ex-juiz e ex-ministro de Bolsonaro suspeito para julgar este e outros casos no âmbito da Lava Jato e todas as punições a Lula foram extintas.

Nas telas

O filme Amigo Secreto, dirigido por Maria Augusta Ramos (de O Processo, sobre o impeachment de Dilma Rousseff), tem pré-estreia nesta segunda-feira (13) em São Paulo, e entra em circuito nacional na quinta (16). O documentário acompanha a rotina de jornalistas do The Intercept Brasil e do El País Brasil na cobertura do que ficou conhecido como o escândalo da Vaza Jato, em 2019.

Com Folha de S.Paulo e Fórum – Redação RBA: Fábio M Michel

(Foto: Agência Câmara | ABr)

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