“Fogueiras de Junho” na crônica de Jair Vivan Jr.

O mês de junho era fogo, contrastando com o frio intenso do inverno então, só mesmo alimentando a fogueira, e tudo que fosse de queimar ia sendo separado para a próxima, eram três durante o mês, Santo Antonio, São João e São Pedro, conforme as imagens estampadas em tecido, enquadradas e dispostas de forma triangular erguidas no mastro.

Bandeirolas de folhas de revistas e papel de presente ou algum outro papel bonito e aproveitável acumulados para o evento, cortadas em vê invertido e de bico, fixadas alternadamente com cola de farinha de trigo em varais de barbante de fora a fora no espaço aéreo do terreno baldio destinado ao evento.

Nas mesas também improvisadas, aliás tínhamos expertise em improviso, eram acomodas as guloseimas arrecadadas na vizinhança, iam de doces semi industrializados como pé de moleque, paçoca, mariola, maria mole, bolacha recheada com maria mole, doces de batata e abóbora em formato de coração, suspiros coloridos e algum outro, a bolo de fubá, pipoca, milho cozido, groselha, quentão, pamonha, curau e outros bolos e tortas, até pavês mais caprichados feitos e cedidos pelos participantes que iam se empolgando em ajudar quando viam nosso empenho, agigantando a festa.

Bombinhas, granadas, busca-pés, diabo maluco, caixas de fósforos de cor e do grandão individual prata e vermelho, canudos que soltavam bolas de fogo coloridas, vulcão que jorrava fogo e também bolas coloridas, rodinha que girava soltando faíscas e apitando e alguns outros pirotécnicos, mas a sensação eram as granadas, acho que a maior era a número 5 que causava grande estrondo, farta em pólvora para fazer caminho de rato, muito usada também para soltar em baixo de latas, mandando muito alto, estufando e até arrancando o fundo, emoções ainda mais forte ficavam por conta dos adultos que compareciam com rojões: morteiro 3 tiros, de lágrimas e de vara, disputávamos os cartuchos já vazios, mas os de vara tinha que correr atrás, era de quem encontrasse.

No mais era mesmo em volta da fogueira, fazíamos de tudo para que não acabasse, era quando tudo ia para o fogo, ripas de cercas da vizinhança, porta velha, pó de serra de raspa de Syntéko levantando labaredas, pedaços de plástico e tecido, raramente descartados e até pneu velho e fio encapado causando cheiros desagradáveis tendo que ser retirados rapidamente para que a festa continuasse.

O final da fogueira era alegre e triste, triste por ser o final, principalmente se fosse a de São Pedro, a última do ano e alegre que por ser o final da festa e já não ter tanto a atenção dos adultos que estavam ocupados matando o quentão, ficava à mercê da criançada, era quando saímos espalhando brasa, assando batata, pulando fogueira, queimando tudo e se queimando.

No dia seguinte a tristeza e a alegria do rescaldo, alegria de encontrar os pregos, parafusos, dobradiças, pedaços de fios de cobre e outros objetos de metal que não tivessem sido absorvidos pelo fogo e as bombinhas que tinham falhado, mas ainda com pólvora que pudesse ser aproveitada e a tristeza por ter sido a última do ano e por ter queimado os dedos ao descobrir que ainda tinham brasas no meio das cinzas.

JVivanJr.

APOIE

Seu apoio é importante para o Jornal Contratempo.

Formas de apoio:
Via Apoia-se: https://apoia.se/jornalcontratempo_apoio
Via Pix: pix@contratempo.info