É golpe ou impeachment?

por Edmilson Soares*

É golpe ou impeachment? Eu não tenho dúvidas, é golpe e dos mais grosseiros. Mas aos olhos da opinião pública (se é que ela existe) o sucesso ou o fracasso do Governo Temer responderá essa pergunta.

Se alcançar algum êxito, o que é pouco provável, impeachment, caso contrário, o golpe sobressairá. Dilma ainda pode voltar? Poder até pode, mas na atual conjuntura, e para aqueles que se identificam com campo ideológico da esquerda democrática e progressista – meu caso – é melhor que ela não volte.

Explico: É traumático, eu sei, especialmente por se tratar da primeira mulher presidenta desse país, aliás, a história ainda explicará melhor o quão machista foi sua destituição, mas não há outro jeito. Vai ser melhor assim.

Como Dilma negociará com um Congresso todo contrário ao seu governo e tomado por potenciais bandidos implicados em escândalos? Não governará. E se for para governar cedendo espaço para os ratos traidores em nome da “governabilidade” como já o fez, principalmente nesse seu segundo mandato, é melhor ir para casa mesmo. Sua única alternativa seria governar com o povo e para o povo, com uma forte guinada à esquerda, junto aos movimentos sociais que lhe deram a vitória no pleito de 2014, o que convenhamos, é também pouco provável de acontecer…

Melhor mesmo é deixar o Governo Temer colher os frutos podres do golpe. A imprensa internacional já denuncia o golpe. Muitos não reconhecerão nele legitimidade (Uruguai, El Salvador, Equador e Venezuela foram os primeiros). Temer não terá força para propor nada, terá que conviver com fortes protestos e manifestações, estará fadado ao fracasso e, portanto, sublinhado como golpista.

Uma equipe ministerial sem mulheres, sem negros, sem a diversidade do povo brasileiro e que promete muitos cortes, alta de impostos e retrocessos, além de transparecer sua ilegitimidade representativa, fará com que até o mais boçal dos apoiadores do golpe perceba que se ruim com Dilma, pior sem ela.

E o caminho estará aberto para a volta de Lula ou até um Ciro, ou quem sabe os dois, haja vista que o vice não poderá ser, novamente, outro canalha conspirador. O PSDB rachará com seus inúmeros projetos pessoais de poder e nenhum de país. Não conseguirá se livrar do ônus do golpe.

E quanto a Marina Silva? Esses vinte e tantos por cento de votos é o máximo que ela conseguirá. Sua incoerência já virou piada e uma “nova política” sem uma reforma profunda no sistema político é só mais outra farsa produzida pelo oportunismo de momento e pelo marketing político. Será desconstruída nos debates, sobretudo num eventual segundo turno por Lula e/ou, especialmente, por Ciro.

Evidentemente, tem muita água para rolar por de baixo da ponte da política brasileira ainda, de modo que é difícil fazer qualquer previsão, e os episódios recentes, cheios de reviravoltas e incertezas, parecem terem sido escritos por George R.R. Martin.

Só espero não estar sendo otimista pois o otimista é um tolo, já dizia Suassuna. Segundo o poeta, bom mesmo é ser um realista esperançoso. Esperemos para ver. The winter is coming!

Edmilson Soares é colaborador do Jornal Contratemppo