O Expurgo nos Quartéis – Parte II

Por João Teixeira
O ciclo militar (1964/85) que se impôs ao derrubar o projeto nacional-reformista do então presidente João Goulart e seu bloco aliado consolidou o protagonismo das Forças Armadas – o Partido Militar – na cena política brasileira.
Para que chegássemos nos dias atuais, com o domínio do neoliberalismo e do indesejável (des)governo de Bolsonaro, sustentado por 6.157 militares da ativa e da reserva em postos-chave do aparelho do Estado, o expurgo verificado nos quartéis foi o início da escalada neste processo.
Os generais de 1964 arrostaram a ferro e fogo a política partida partidária no Exército – nossa principal força- para impor a política do Exército como guardiá dos interesses das classes dominantes.
A burguesia monopolista e financeira integrada ao capital externo impôs sua hegemonia no interior das classes dominantes, e assumiu o controle absoluto do Estado, criando as condições políticas para a realização plena de seus interesses estratégicos, centrado na superexploracao do trabalho.
As bases do “Brasil Grande” foram assentadas a um alto custo social.
Em “A crise brasileira”, Marighella escreveu: “um erro comum dos comunistas e das forças de esquerda em geral foi a propaganda da tese de que as Forças Armadas brasileiras são democráticas ou tém tradição democrática. Semelhante tese – a julgar pelo papel dos militares no desempenho do poder através do balanço histórico de sua atuação permanente – não tem substância marxista. Constitui-se – na verdade – mais uma ilusão difundida por aqueles que mais deveriam estar prevenidos contra ela (…).
Essa era a crítica central do líder dissidente á “ilusão de classe” do PCB em 1964.
“(…) é preciso insistir na tese de que as Forças Armadas militares se identificam com o Estado e tém uma posição de classe definida, uma função repressiva ante o movimento de massas e sua expansão. Essa função coibitiva das Forças Armadas que sistematicamente dá origem, em seu interior, aos golpes militares antipovo (…).
A contenção ideológica foi devastadora entre os fardados e os civis.
“A anistia do general João Figueiredo (1979) só contemplou os oficiais, os do andar do meio para cima” – comenta o advogado Inácio Valério de Souza, ex-marinheiro, exilado no Chile, e presidente da União dos Militares Insuficientemente Anistiados e Não Anistiados (Umina/SP).
“A dívida da ditadura foi sanada perante a opinião pública” – declarou Valério, após ter encaminhado 1.048 processos de marinheiros na Primeira Auditoria do Rio de Janeiro.
Outro advogado, Bernardino Lourenço Serra, deu entrada a 780 outros processo, nas últimas décadas. Igualmente, outros 80 processos, a maioria de fuzileiros navais, foram atendidos pelo advogado José Candido de Carvalho.
Outros 188 processos, referentes ás punições impostas pela Marinha aos marinheiros e fuzileiros navais envolvidos na rebelião de 25 de março de 1964, no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, foram encaminhados pelo Dr. Inácio Valério.
As condenações de 283 marinheiros somam penas que superam 13 séculos de prisão.
O caráter elitista e seletivo da corporação militar desponta também neste aspecto.
Os oficiais golpistas costumam ser imediatamente anistiados; os baixa-patentes são expulsos e condenados, em governos civis ou militares.
O caso do advogado Inácio Valério retrata o passado de milhares de fardados de oposição.
Durante 20 anos, Valério serviu como marinheiro no Corpo de Fuzileiros Navais, próximo ao Arsenal da Marinha (RJ).
No dia do golpe, estava acartonado em companhia de centenas de marinheiros e fuzileiros navais, armados e entricheirados, á espera da ordem do almirante Candido Aragão para atacar o Palácio Guanabara e o governador golpista da UDN, Carlos Lacerda.
“Se a ordem tivesse vindo, a História do Brasil poderia ter sido outra” – acredita ele.
Haviam tropas do Exército prontas para reagir ao golpe no Rio, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, porém mudaram de lado, rapidamente.
Marighella: “(…) outra questão controvertida é saber se pode obter o apoio das forças militares em seu conjunto para o triunfo da revolução no Brasil. A isso os marxistas respondem negativamente, pois o contrário seria fugir á tese de que as Forças Armadas em seu conjunto são um instrumento de repressão do Estado e se identificam com ele. Não há nenhum exemplo histórico de revolução com ajuda total das forças militares do Estado completamente reacionário ou democrático-burguês, se a revolução em causa é popular ou mesmo nacional e democrática, sob a liderança do proletariado (…).
O general-de-brigada Euryale de Jesus Zerbini – irmão do famoso médico cardiologista Eurícledes de Jesus Zerbini – figurou na primeira lista de cassações, em 1964, após ter chefiado o Estado-Maior do general Amaury Kruel, no comando do II Exército.
O general Zerbini fundou o CPOR em SP, comandou a Força Pública e foi professor da Escola Superior de Guerra.
Comandava o destacamento de Caçapava e foi cassado por ser nacionalista e legalista, defensor do mandato constitucional do presidente Goulart.
Em “Zerbini, um general muito amado”, lançado em seu centenário (1908/2008), Therezinha de Godoy Zerbini, sua esposa, fundadora do Movimento Feminino pela Anista e ex-presa política (a “burguesona”), conta:
“No dia 31 de março de 1964, o general me enviou um bilhete, de próprio punho, informando que todos generais do II Exército haviam se rendido ao comandante Kruel e do comandante do IV R.I. Pedia cautela, bom senso e que cuidasse dos nossos filhos e, também, tranquilizasse seus pais e irmãos. Enviou junto um cheque de 250 mil cruzeiros para as despesas. No final do bilhete, um PS: ‘use discrição esses dias”.
Em 9 de abril, Zerbini era um dos primeiros nomes de generais cassados, ao lado de Assis Brasil, Ladário e Cunha Mello.
Nenhum comandante deu -lhe ordem de prisão, no Forte de Copacabana, por conta de sua excecional biografia.
Zerbini foi um autêntico general do povo – o primeiro oficial paulista a atingir o generalato no século XX.
Na Revolução de 1932, combateu ao lado do chefe e amigo coronel Figueiredo, pai do general-presidente João Figueiredo.
Zerbini abriu estradas e ajudou na industrialização do Vale do Paraíba, como engenheiro da Poli-USP.
No comando do R.I. de Quitaúna, engajou o Exército no atendimento social dos moradores de Osasco, um reduto rural extremamente carente na época, providenciando vacinação e atendimento médico para os moradores do km 18 da via Rápido Tavares, nas imediações do quartel.
Construiu 300 casas para os sargentos e suas famílias, quando o tenente Jacob Pinheiro Goldemberg era assistente social junto á população carente.
Marighella: “(…) afastada a ideia de ganhar o conjunto das Forças Armadas para a revolução- o que constituiria um visionarismo – resta ao proletariado adotar uma política militar cujo objetivo seja atrair para o lado da Revolução uma parte das forças militares convencionais” (“A crise brasileira”, pg 271).
O general Zerbini – poeta, intelectual e filósofo, aluno de Marilena Chauí, a musa do PT, na USP, onde graduou -se com Merleau Ponty – liderou um grupo de oficiais e civis nacionalistas, que se opunham ao desenvolvimento a qualquer preço do Brasil Potência, propondo mudar os métodos de ensino, conferindo-lhe um caráter nacionalista.
Opunham-se aos entreguistas, como o estagiário Byngton, do grupo Light, que queriam a Eletrobras estrangeira.
Estes “tramaram, urdiram, conspiraram contra o governo constituído, até a quebra da legalidade”.
“Com a Vitória da UDN de farda, junto com os civis da elite predatória do País, e os anticomunistas fanáticos, a Escola Superior de Guerra implantou, após a quebra da legalidade, a política de Segurança Nacional – Resta perguntar: segurança para quem?”

Palavras-chave: golpe de 1964; anticomunismo; expurgo de militares.

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