O mito foi-se o martelo

Carlos Frederico dos Anjos Marques*

Atenção camaradas brasileiros, depois do resultado das eleições ganhas antes da hora, fomos às ruas, longe do povo, mas diante de nosso fracasso triunfal, seguimos, sem saber aonde ir pelas estradas, para ao menos atravancar o trânsito em centenas de pontos de rodovias do território brasileiro.

Tudo foi feito para parar o Brasil de circular livremente e causar prejuízos aos patrões dos caminhoneiros participantes e impedir o livre ir-e-vir das pessoas que apregoamos.

O ato de resistência durou até quando percebemos que o resultado foi contra nós e não significou nada no nosso intento de dar um golpe legítimo.

Ademais, os Gaviões, com sua animada turma da democracia corinthiana, vai ver por causa do nosso presidente palmeirense, mal chegou para abrir o trânsito na Ponte das Bandeiras, na capital paulista, botou nossos camisas-verdes para correr.

Fomos covardes, nem deu tempo de apelar para a bandeira branca, e qual um bando de galinhas nem gritou anauê! Em Minas Gerais, também, a turma do Galo nos botou para correr, pois é ele que canta no seu terreiro.

Enquanto isso, embora nossos protestos ruíssem nas estradas da vida, para compensar o nosso Mito se omitiu e ficou calado.

Entretanto, para entrar na história, desta vez, em vez de imitar Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, e cometer o ato extremo de covardia, nosso corajoso presidente não nos surpreendeu e seguiu à risca o enredo da farsa da história quando se repete.

O Mito, vejam só, no calar da noite, trancou-se no banheiro do Palácio da Alvorada, chorando copiosamente. O ato isolado de bravura, também, rachou a família, nosso lema que tanto defendemos em vão se nenhuma das três dele está unida, nem na tristeza. Nem as emas aquentaram o canto do cisne!

Foi o exemplo e final do Mito, apesar de um a um dos poderes reconhecerem o resultado das eleições apuradas, além da mídia comprada e de todos governos sanguinários deste mundo de pecadores, que destruiu o capitalismo e caminha célere para o comunismo, a começar pelo Brasil.

Até o nosso general esteio das Forças Armadas, o Mourão, um traidor, admitiu a nossa derrota, pois caso contrário seria derrotado na eleição que elegeu-se senador pelo Rio Grande Sul.

O estranho no ninho paulista, nem ao menos piou, para garantir a lisura da eleição mal contada, se lá não tem domicílio e nem sabe aonde vota.

Pelo visto, nem Deus está mais de nosso lado, pois o nosso aliado maior, o bispo Edir Macedo, com sua tropa de deputados pastores, já aderiu ao reconhecer que o Supremo deu mais uma oportunidade no segundo turno e não adiantou.

Nem dá para calcular o preço de cada voto. Malgrado o Guedes tenha quebrado as finanças do país, baixando artificialmente o preço da combustível, e em plena proibição de dádivas governamentais, para caçar voto, deu cinco meses de vale-voto embutido no Auxílio-Brasil.

Não valeu nada confiar em comprar voto de pobre que, infiel, encheu a barriga, se endividou com o empréstimo consignado e votou contra o trem pagador.

É triste lembrar que na eleição passada ganhamos sem único debate, nem partido, pouco dinheiro e uma facada.

Agora no poder, conseguimos perder a eleição ganha, com tanta grana, por causa da granada e do maldito tiro do Roberto Jefferson na viatura que foi prendê-lo no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, a nobre deputada Carla Zambelli, ao contrário de ir buscar a arma do voto, preferiu perder o rumo no bairro da elite. Aprontou um barraco ao cair em sí e cruzar a rua correndo de arma na mão no sentido da parede do restaurante, que adentrou, atrás de um eleitor adverdário.

Então, dado o exemplo, fomos bater às portas dos quartéis e lá fazer, com o patriótico exército voluntário das massas sem povo, nosso muro de lamentações.

Foi um espetáculo circense, com barracos finos dando alimento de graça ao corpo são e reza para a alma eterna. Teve até concurso de hambúrguer gourmet e do melhor bloco de marchinha, mas a vencedora foi aquela que a criançada em nosso apoio cantava e contaminou a parada cívico-militar: “marcha soldado cabeça de papel, se não marchar direito vai preso pro quartel!”

Um delírio coletivo, mas ninguém lavou a alma, com mais um fracasso, pois descobrimos que os generais nem ficam mais nos quartéis e o povo profano passava zoando do nosso ritmo, cadência, jogo de cintura, porta-bandeira e evolução na passarela.

Parecia um carnaval na Quarta-feira de Cinzas, sem nenhum negro, nem aquelas mulatas seminuas e muito menos gay, pois nosso movimento é puro e honesto.

Ainda bem que aproveitamos os crentes e fizemos o nosso Muro das Lamentações. Teve gente que de tão patriota imitou o Mito e chorou copiosamente em público. Parecia um descarrego!

Diante de mais um fracasso, que não foi nada, pois o brasileiro não desiste nunca, um financiador do rega-bofe deu uma ideia brilhante, para desmoralizar de vez os comunistas, que fazem greves de trabalhadores para tomar dinheiro do patrão.

A nova tática dentro da nossa estratégia de manter o poder a qualquer custo é usar aquela velha e bem sucedida do inimigo que é a dialética marxista. A luta dos contrários, com a crítica na análise da situação com a proposta, a contraproposta e o acordão.

Assim, unidos, mais uma vez fomos à luta para inverter a lógica d´O Capital e desmoralizar Karl Marx. Declaramos greve geral, pela primeira vez na história, no sagrado dia cinco de novembro, para lembrar o rompimento da barragem de Mariana/MG.

Porém, desta vez inovamos, sem nada de trabalhador nos prejudicar e cruzar os braços e se unirem no mundo, já que não têm nada a perder exceto os grilhões, pois para garantir a parada seriam às custas e custos das empresas que produzem e empregam mão de obra e cérebros pivilegiados deste rico pobre País.

Descobrimos que só na indústria bélica, distribuição, lojas, clubes de tiros e de caça espalhados pelo Brasil são aproveitadas três milhões de almas, sem falar nas milícias e narcotráficos armados, para fazer armas e matar desde passarinhos até os seres humanos mortais. Tiro certo, sucesso garantido!

Então, na cadeia da produção com tudo paralisado, o espectro do comunismo iria embora, pois os salários seriam pagos e quebrariam os nossos bravos capitalistas sem capital.

Contudo, não sabemos o que houve, mas os desgraçados dos proletariados, sem cruzar os braços, nem líderes, venceram e trabalharam normalmente.

Pena que nosso guru, Olavo de Carvalho, não está mais entre nós para acabar com o marxismo cultural e mostrar a luz no fim do túnel.

Mas, a nossa última cartada estava guardada na manga do colete à espera do famigerado relatório do Exército, que ajudou nas barreiras para evitar gente pobre ir votar de ônibus, pois nossa elite, além do voto de qualidade, não vai nem táxi, mas de carro de luxo votar pela liberdade de todos nós ricos e pela democracia, com a nossa pátria armada acima de tudo e Deus, no estado laico, acima de todos.

Porém, fomos traídos igual aquele patife do Galileu Galilei, que jurou com a mão na Bíblia que a Terra era o centro do Mundo, mas, entre os dentes, disse que entretanto se move. Fomos abandonados pelos militares.

O glorioso Exército Brasileiro, desta vez surpreendeu, porque no lugar de seu histórico de levante militar, resolveu ficar no seu papel Constitucional, pela legalidade, sem sequer única quartelada.

Também, os militares, sem bala na agulha, foram se meter em auditar a maldita urna eletrônica. Bom era o tempo do voto de cabresto que o coronel entregava o envelope lacrado para seu cabo eleitoral depositar na urna, sem saber em quem votava, pois o voto impresso era secreto!

Por isso, só podia dar no que deu, depois de dez luas passadas de noites indormidas, e muita pajelança, em 76 páginas sagradas, logo no início confessa que não houve fraude nas urnas. Não precisava dizer mais nada, nem gastar tempo e dinheiro do erário.

O vexame piorou, pois não encontrou sala secreta alguma, mas, para salvar a alma, em fala mansa, diz que o tal código fonte secreto poderia, eventualmente, ser quebrado e nem isso souberam fazer para salvar o país do comunismo.

Agora estamos nas mãos do ínclito Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Por isso, é bom já ir se acostumando que finalmente conseguimos perder a eleição ganha antes da hora.

Bem se diz lá em Minas Gerais – estado que tal qual seu Joaquim Silvério dos Reis, nos traiu no primeiro turno e decidiu a eleição – que o resultado de mineração no garimpo, que ajudamos tanto para destruir a Amazônia, de sentença de juiz, que desrespeitamos tanto, e das urnas, que desacreditamos muito, a comemoração só se faz depois da apuração.

Perdemos a eleição? A única explicação é porque faltou voto na urna. Agora só nos resta esperar novas eleições.

Agora é deixar secar as feridas e esperar as cascas caírem por si, para no momento certo aderir ao governo, sem muita pressa, para não ficar barato, nem tão demorado para perder o valor de troca se não temos valor de uso algum e ficar só com as migalhas.

* jornalista independente

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