“Um corpo que cai” (1958): A tapeçaria de Hitchcock – Por Bruno Yashinishi

Há mais de cinco décadas, as principais listas dos “100 melhores filmes de todos os tempos” incluem entre o “top 5”, uma obra-prima do diretor britânico Alfred Hitchcock, o “Mestre do Suspense”. O filme é “Um corpo que cai” (título original: Vertigo), de 1958.

O longa-metragem acompanha Scottie Ferguson (James Stewart), um detetive aposentado que sofre de acrofobia, e sua obsessão por Madeleine Elster (Kim Novak), uma mulher misteriosa que ele é contratado para seguir. A trama, cheia de surpresas e de “Plot Ttwist” (termo que nem existia na época do lançamento do filme) faz com que Hitchcock explore  profundamente temas como identidade, realidade, desejo e morte.

Sob a lente da psicanálise freudiana, o filme destaca a dinâmica entre Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte). A atração de Scottie por Madeleine está saturada de um erotismo mórbido e uma busca desesperada por um ideal inalcançável. A obsessão de Ferguson em transformar Judy (também Kim Novak) em Madeleine exemplifica a pulsão de morte, onde o desejo se torna destrutivo e leva a uma repetição compulsiva. Segundo Freud, a repetição compulsiva é uma tentativa de dominar uma experiência traumática. O detetive está preso nesse ciclo, incapaz de superar a perda de Madeleine, perpetuando assim seu trauma ao recriar constantemente essa experiência.

Além disso, a transformação de Judy em Madeleine sob a insistente direção de Ferguson pode ser vista como uma ilustração da teoria freudiana do narcisismo e da idealização. Scottie não ama Judy por quem ela é, mas sim por sua capacidade de representar sua fantasia idealizada. Isso ressalta a alienação do eu verdadeiro em favor de um ideal projetado, um conceito central na teoria psicanalítica.

Do ponto de vista filosófico, o filme levanta questões profundas sobre identidade e realidade. A transformação de Judy em Madeleine questiona a maleabilidade da identidade e o papel da percepção na formação do eu. Scottie está obcecado com uma imagem idealizada, sugerindo que a identidade é um constructo subjetivo, moldado por percepções e desejos. Isso se alinha com a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, que explora a construção do eu através do conceito de má-fé, onde os indivíduos se enganam sobre suas verdadeiras identidades para se conformar a expectativas externas.

A percepção e a realidade também são temas centrais no filme. A acrofobia de Ferguson e suas ilusões subsequentes destacam a fragilidade da percepção humana. Hitchcock manipula a perspectiva do espectador, utilizando ângulos de câmera e efeitos visuais para criar uma sensação de vertigem, espelhando a experiência de Scottie e questionando a confiabilidade dos sentidos humanos. Esta abordagem ressoa com a filosofia fenomenológica de Edmund Husserl, que investiga como a percepção molda nossa experiência da realidade.

Em resumo, “Um Corpo que Cai” é uma rica tapeçaria filosófica e psicanalítica que explora a complexidade da mente humana. Hitchcock, através de sua narrativa envolvente e direção magistral, desafia o espectador a questionar a natureza do desejo, da identidade e da realidade, oferecendo uma profunda meditação sobre obsessão e percepção. A obra não só cativa pela sua trama, mas também por sua capacidade de suscitar reflexões profundas sobre a condição humana. Um filme obrigatório de um diretor obrigatório!

 

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