Seguindo a tendência nacional, Bradesco de Ourinhos descumpre acordo com sindicato

Mesmo com a pandemia, bancos iniciaram demissões de bancários e fechamento de agências

 

Juliana Neves

Semana passada, foi iniciada uma movimentação de demissão em massa do banco Bradesco em âmbito nacional, que atingiu Ourinhos e região. Uma informação que foi concedida por um bancário, que teme a retaliação e, por isso, solicitou que a identidade fosse preservada, esclarece a demissão de três funcionários.

Os servidores chegaram ao seu local de trabalho e foram avisados sobre a demissão. Um deles é um jovem que perdeu o emprego com a justificativa de que ele não tinha perfil para continuar na empresa. Os outros dois, um homem e uma mulher, com mais tempo de experiência na instituição, foram dispensados com a alegação de “não cumprirem metas”.

Essa situação foi confirmada por Edilson Julian, presidente do Sindicado dos Bancários de Marília e região, que afirmou ter realizado uma reunião com a instituição financeira quando começaram os desligamentos, para cobrar a razão dessas demissões.

O banco alegou que o ocorrido é uma ação de ajuste, que já estava planejado. “Nós, do movimento sindical, não concordamos com esta ação de demissão, porque não há lógica e necessidade, pois o banco continua lucrando”, declara o presidente.

Com isso, a base do sindicato – constituída por Marília, Garça e Ourinhos – já registra oito demissões que são avaliadas como uma situação grave. Afinal, o banco se encontra em uma reestruturação que não deveria ser feita durante uma pandemia.

Segundo Julian, “fizemos uma manifestação na última quinta-feira, 15, para mostrar a indignação dos funcionários com esta demissão em massa. E em uma outra reunião com a empresa, cobramos a reversão dessas demissões ou que pelo menos parasse, mas vão continuar até novembro, sempre alegando ser ajustes empresariais. Com isso, temos funcionários inseguros, sem condições de trabalhos, possuem altas metas para cumprirem e agora surge o medo da demissão. A única ação sinalizada, positivamente, pelo banco foi a promessa da extensão por mais seis meses do plano de saúde dos que estão sendo desligados”.

Isto demonstra um descumprimento de palavra, pois, no início da pandemia, foi realizada uma reunião do sindicato com as autoridades de todos os bancos e o posicionamento das instituições foram de afirmar a não realização de demissão durante a pandemia. Entretanto, além do Bradesco, já houve desligamento no Santander e Itaú, em níveis menores.

Outro ponto que faz a população questionar a onda de demissões, é a questão digital que foi acelerada neste período de pandemia, com o estabelecimento do PIX no próximo mês. São alterações no sistema financeiro que deveriam ter sido realizadas para um melhor conforto para o cliente, mas, mesmo assim, há muitas pessoas que preferem resolver o que for preciso nas agências.

“O cliente procura a agência com razão, porque ele paga as tarifas e quer ser atendido por um funcionário real, muitos não conseguem e/ou não gostam de usar o aplicativo e preferem uma resolução de problema pessoalmente. E quando voltarmos para a normalização de atendimento, sem pandemia, como que ficarão as agências? Vai voltar a ser um espaço ocupados por muitas pessoas, um local cheio, porque as pessoas gostam de ir até o banco”, conclui Edilson.

 

Assis e região

Em uma visão de outra região, o esclarecimento de Fabio Escobar, diretor do Sindicato dos Bancários de Assis, é de que o banco está aproveitando da pandemia, mesmo mantendo um lucro alto, para fazer as demissões e colocando funcionários em home office. Isso reduz os custos e aumenta o lucro dos banqueiros.

“É uma sequência de razões, sendo a principal o aumento de lucro, porque os balanços atuais continuam os mesmos números de sempre. E a nossa avaliação é muito triste, porque em um momento tão difícil como esse, tem pessoas colocando a sua vida em risco para trabalhar e o banco inicia a onda de demissão. Um total desrespeito com o trabalhador, pois existia um acordo entre os grandes bancos e os sindicatos que não haveria demissão até o fim da pandemia”, conta o diretor.

Com a relação da chegada do PIX, a opinião é de que possa haver alguma influência. Pois quanto mais o banco puder lucrar com automação e processos informatizados, mais colocarão em prática algumas atitudes. Mas, de acordo com Fabio, neste momento não há relação direta com o PIX.

Portanto, o movimento sindical de Assis e região também está realizando protestos, de uma forma virtual ou em locais pontais, “fazemos atos, não só contra o Bradesco, mas também o Itaú e Santander para questionar a demissão dos nossos bancários. Acreditamos que possamos mobilizar a população e transformar realidades, podendo reverter essa situação e trazer resultados positivos. Até porque está acontecendo demissões em todos os bancos e, inclusive, fechamento de agências, proporcionando um atendimento mais precário para a população”, enfatiza Fabio.

Demissões geram insegurança e receios nos bancários (Foto: arquivo Contratempo)

Humanos e as máquinas

Vivenciar uma digitalização financeira e uma onda de demissão em massa é viver preocupado com a substituição frequente de humanos por máquinas para cumprirem as funções nas empresas. E é um medo antigo.

As primeiras Revoluções Industriais, no século XVII e XIX, já indicavam uma tentativa para dinamizar o trabalho. Isso demonstra que reconhecer a produção em série organizada para obter uma maior produção, com especificidades em cada setor, e com mão de obra pouco qualificada para cada processo do trabalho em larga escala é o ponto de partida para o grande problema.

“O filme clássico de Charles Chaplin “Tempos Modernos” (1936) retrata essas mudanças de maneira cômica, a proposta é sempre de melhoria das condições de trabalho, maior dinâmica em menor tempo, no entanto, o que o trabalhador recebe é uma precarização de suas relações de trabalho”, conceitua o professor de sociologia Willians Alexandre Buesso da Silva.

Outros clássicos da literatura de ficção científica nos mostram narrativas com dominação das máquinas sobre o humano, por exemplo, o “Admirável Mundo Novo” (1932) de Aldous Huxley e “Eu, Robô” (1950) de Isaac Asimov. E o capitalismo nos sugere a presença de inteligência artificial de acordo com a sociedade atual, além da evolução tecnológica que vivemos absurdamente muito rápida, crescendo de uma maneira que um dia foi inimaginável para todos.

“A razão pressuposta para este avanço todo sempre está pautada no progresso, na melhoria de nossas vidas, na dinamização do trabalho, porém, há, no entanto um intermediário entre nossas vidas e esta produção, chamada relações de produção, que dependem de um contexto histórico, político, cultural e social. No momento, estas relações de produção estão cada vez mais precárias para o trabalhador, pois a política do lucro encolhe o valor à vida, às condições de trabalho dignas e os próprios direitos trabalhistas quem vem sendo assaltados correntemente”, esclarece o professor.

Desde as primeiras Revoluções Industriais se fala na substituição do humano por máquina (Foto: licença Freepik)

Atualmente, na visão de Willians, este processo de avanço da tecnologia é irreversível na substituição da mão de obra humana em grandes empresas, já em trabalhos autônomos usar e abusar da tecnologia é opcional.

Por exemplo, o artesanato voltou a ganhar destaque no mercado de trabalho e quanto mais todos os processos são feitos à mão, maior é o seu valor. Já em questões acadêmicas, por causa da pandemia, há universidades enxugando o corpo docente e investindo em uma carga horária reduzida para um ensino à distância, provocando demissões.

“Há então uma educação social para nos fazer compreender que a tecnologia é benéfica, facilita nossa vida, torna barata nossos custos, no entanto, ela tem atingido patamares perigosos. […] e é sempre importante lembrar que por trás da máquina há um ser humano com um ideal de sociedade, devemos pensar, qual é este ideal de sociedade em que a tecnologia está substituindo o trabalhador? Qual é este ideal de sociedade em que a educação ocorre exclusivamente à distância?”, salienta o professor.

Para o futuro, a chave são as relações de produção, porque com a baixa formação da mão de é obra é um momento propício para o aumento desta substituição dos postos de trabalhos.

E a única saída para reverter a situação, na opinião de Willian é “a educação, sempre uma das primeiras saídas para se pensar os problemas sociais, não apenas pensada enquanto meritocracia, “estudar pode mudar seu futuro financeiramente”, e sim, no sentido prático de ações concretas, de criar alternativas de trabalho que não dependam do risco da substituição por máquinas, pois somos condicionados a achar que dependemos diretamente dos serviços oferecidos por grandes empresas, quando na verdade ocorre o contrário, elas dependem de nosso consumo, contas criadas, aplicativos, comodidades e demais promessas de uma vida tranquila a partir do toque em um celular”.