Tribunal do Feicebuqui

Utilizei-me do nome de uma canção do genial Tom Zé para comentar sobre algo que me incomoda muito.

Antes, porém vou me atrever a imaginar que algum dos incautos leitores desta coluna não conheça a história daquela música.

Pois bem, Tom Zé, reconhecido gênio da cena cultural brasileira há mais ou menos quatro anos aceitou fazer um anúncio de uma marca mundial de refrigerantes. Mal o anúncio foi veiculado e as patrulhas caíram em cima do ilustre baiano (paulistano por opção) para condená-lo ao fogo do inferno. Nos perfis de feicebuque dos patrulheiros pululavam acusações a Tom Zé que, senhor da criatividade, respondeu musicalmente.

A canção que deu título a este texto tem versos primorosos, dos quais destaco três:

Vendido, vendido, vendido!

A preço de banana

Já não olha mais pro samba

Tá estudando propaganda

Que decepção”

Traidor, mudou de lado

Corrompido, mentiroso

Seu sorriso engarrafado”

Bruxo, descobrimos seu truque

Defenda-se já

No tribunal do Feicebuque

A súplica:

Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?”

É bom que se esclareça, logo de saída, que eu não tenho e nem quero ter feicebuque, mas me sinto plenamente à vontade para tecer meus comentários, afinal de contas eu até posso ser um ET nesse mundo redessocializado, mas convivo com pessoas que se utilizam daquela rede cotidianamente.

Esclareço também que não tenho nada contra quem tem feicebuque, mas acho que há ocasiões em que a tal rede vira realmente um grande tribunal, conforme vaticinado pelo ilustre compositor Iraraense.

Amizades, ao longo da vida, a gente faz muitas, mas infelizmente desfaz algumas. Seja por falta de afinidade ou outro motivo menor, seja porque haja se sentido ofendido com alguma atitude do ex-amigo. De alguns amigos somos muito próximos e de outros nem tanto. Algumas amizades são mais fortes do que laços de família.

Há ainda aquelas amizades que simplesmente esmaecem e o outrora amigo se torna apenas mais um conhecido. Às vezes, no entanto, o afastamento pesa mais para um lado do que para outro.

Deixem-me voltar ao foco, pois meu intuito neste texto não é fazer um tratado sobre amizade, mas abordar o papel deletério que o tal do feicebuque exerce em algumas ocasiões.

Exemplo desse papel deletério conteceu aqui em Ourinhos com as reações furibundas e anacrônicas em relação às postagens do atual Secretário Municipal de Cultura, que no passado criticou as atitudes ignorantes, para dizer o mínimo, que se comete em nome de deus. Esse mesmo deus, que segundo outro gênio, Millôr Fernandes, “foi criado à imagem e semelhança do homem”.

No caso Flores, as reações vieram das lideranças religiosas mais conservadoras, da recém-eleita bancada da bíblia na Câmara Municipal e de alguns simpatizantes de outros postulantes ao cargo de Secretário, que viram no episódio a oportunidade de minar as bases do atual titular. Neste caso o feicebuque também se tornou um tribunal que o condenou sem direito a apelação. Felizmente, ao menos por enquanto, o Prefeito Lucas Silva não se deixou influenciar pelo resultado do julgamento feicebuqueano.

Outro exemplo foi a oportunidade que tive de ver no feicebuque de uma pessoa querida, uma postagem extremamente ácida, sem nomes citados, mas que me deixou muito claro se tratar de um caso de ex-amizade. Não sei se alguém comentou a tal postagem, assim como não sei se houve suficientes “curtidas” para que a mesma possa ser considerada bem-sucedida.

O que eu sei de verdade é que fatos como esse só fortalecem em mim o propósito de jamais querer feicebuque.

Durval de Lara Fernandes é Tecnólogo em Gestão Pública, fez MBA em Gestão de Recursos Humanos e é Pós-graduando em Direito do Trabalho