O exorcista: o devoto (2023): quando o filho não procede do pai – Por Bruno Yashinishi

Drama é meu gênero cinematográfico favorito. No entanto, aprecio muitos filmes de terror, desde que contem uma boa história, desenvolvam uma narrativa plausível e, claro, deem medo de verdade. Em Janeiro desse ano, escrevi um artigo aqui no Contratempo em comemoração aos 50 anos de “O exorcista”, considerado por muitos como o maior filme de terror de todos os tempos (link para o texto: https://contratempo.info/colunistas/bruno-jose/50-anos-do-maior-filme-de-terror-de-todos-os-tempos-o-exorcista-1973-por-bruno-yashinishi/). Na ocasião já havia rumores na internet de que o clássico de William Friedkin, de1973, ganharia uma continuação em 2023. Desde que os primeiros trailers começaram a circular, logo percebi que não ia me decepcionar, afinal, minhas expectativas foram até superadas, já que eram as piores possíveis.

De fato, com a estreia de “O exorcista, o devoto” (2023), dirigido por David Gordon Green retoma-se o pressuposto de que as continuações “estragam” os bons filmes. Isso não é de tudo verdade. Generalizações desse tipo acabam desorientando a crítica cinematográfica. Por exemplo, até os anos 1970, a ideia de continuações era ridicularizada pelos grandes estúdios em Hollywood. Porém, com “O poderoso chefão parte 2” (1974), de Francis Ford Coppola, primeira continuação a ganhar o Oscar de Melhor Filme, vários produtores investiram em trilogias que, a certo ponto, obtiveram grande prestígio.

Em alguns casos um pouco mais recentes como “Homem-Aranha 2” (2004), “O senhor dos anéis: o retorno do rei” (2003) ou “Batman: o cavaleiro das trevas” (2008) as continuações superaram largamente os primeiros filmes das franquias. Claro que são exceções, que além de bons diretores e realizadores contaram com orçamentos multimilionários. Curiosamente, os filmes de terror não têm esse mesmo êxito. Pelo contrário. Algumas continuações soam como ridículas, pífias e até mesmo risíveis.

O histórico das franquias de terror é a pior de todos os gêneros cinematográficos em termos de qualidade técnica e estética. Basta ver o pandemônio das sequências de “O massacre da serra elétrica” (1974), “A hora do pesadelo” (1984) ou “O brinquedo assassino” (1988), por exemplo. A coisa fica ainda mais séria quando um clássico é retirado de sua prateleira e submetido a um experimento que força uma continuação sem qualquer respeito pelo seu conteúdo original, como o caso de “O exorcista, o devoto”.

Na verdade, “O exorcista”, de 1973 já foi submetido a essa experiência algumas vezes e os resultados foram patéticos. Em 1977, John Boorman dirigiu “O exorcista: o herege”; em 1990, o próprio William Petter Blatty (escritor do livo) dirigiu “O exorcista 3”; e em 2004, Renny Harlin realizou “O exorcista: o início”. Todas essas continuações são fraquíssimas, desprezíveis e facilmente esquecíveis diante do filme original que as inspirou. Entretanto, “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Esse novo filme lançado em 2023 é ainda pior do que seus predecessores, ainda mais porque simplesmente os descarta e se propõe soberbamente a ser a continuação do filme de 1973.

A proposta dos produtores de “O exorcista, o devoto” é de emplacar uma franquia e quem sabe criar um universo, como aconteceu com “Invocação do mal” (2013). Para tanto, incumbiram à direção do filme a David Gordon Green, que até saiu-se bem com “Halloween” (2018) e “Halloween Ends” (2022), mesmo que também não tenha superado o original de 1978. A trama conta a história de duas amigas que desaparecem por três dias em uma floresta na busca de contatos sobrenaturais e que, por alguma razão, são possuídas por demônios. Os pais das crianças recorrem a médicos e tratamentos psicológicos sem sucesso, até finalmente buscarem ajuda sobrenatural.

Entretanto, ao contrário do filme original, não há um padre exorcista nesse filme. O único padre que aparece não consegue autorização da Igreja Católica para realizar o sacramental do exorcismo presente no “Ritual Romano”. Então, os pais das meninas agrupam algumas pessoas de diferentes religiões e crenças para enfrentar os demônios. Como se já não bastasse a improbabilidade de reunir esse seleto grupo a facilidade com que o exorcismo acontece e a “escolha de Sofia” entre as duas meninas no final do filme tornam a obra, no mínimo, constrangedora.

Nesse sentido, “O exorcista, o devoto” não é nem um bom filme de terror, muito menos uma homenagem ao original de William Friedkin. Nesse caso, o filho não procede do pai. Se essa franquia vingar, torço para que os próximos filmes não desmoralizem ainda mais o universo mítico e poderoso de “O exorcista”. Precisamos de novos e melhores filmes de terror, mas também precisamos continuar a referenciar os clássicos que fundamentaram esse gênero ao longo da história do cinema.

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