A fotografia e a Verdade – Parte 2-4

Continuando a reflexão acerca do tema A fotografia como processo de criação de verdades, aqui a segunda parte da primeira seção:

O Processo

A fotografia é um processo em duas etapas de geração de uma imagem fixa (estática), e estabilizada (quanto ao processo químico), denomino-a aqui de Matriz-Fotográfica. Após a criação desta matriz-fotográfica o fotógrafo ainda é capaz de controlar diversos processos para geração da cópia-fotográfica, aquela imagem que vemos nas revistas, jornais, ou em molduras em nossas casas.

A primeira etapa do processo é de natureza física, a formação da imagem-fotográfica a ser projetada sobre uma superfície sensível. Esta formação se dá através de uma câmara escura contendo um orifício ou conjunto óptico para formação da imagem-fotográfica. A segunda etapa, a da fixação desta imagem-fotográfica pela superfície fotossensível, é executada por dois métodos distintos, mas igualmente eficazes em seu objetivo, que são: por processos químicos ou processos digitais. Contendo variações e técnicas específicas para cada um deles.

O processo fotográfico, é iniciado quando a imagem-fotográfica é projetada sobre a superfície sensível, e se encerra na obtenção da matriz-fotográfica. É certo que o processo pode se estender além da cópia-fotográfica, porém nunca se encerra antes da matriz-fotográfica. O processo químico concluído, estabilizado, originará uma matriz-fotográfica material, objeto onde a matéria constituinte e a imagem fixada e estabilizada se tornam indissociáveis. A imagem que temos no porta retrato em nossas casas não pode ser retirada do papel que a suporta.

No processo digital é criado uma matriz-fotográfica digital, arquivo de código binário que traduz a decomposição da imagem-fotográfica em pixels. Esta sempre necessitará de suporte, de interface gráfica entre a fotografia-digital e observador, bem como um programa específico que traduza o código binário que compõe o arquivo da fotografia-digital.

Basicamente Fotografia é unir, em ato conjunto e premeditado, o formar e registar uma imagem visível, fixa, estabilizada, através da irradiação luminosa, visível ou não, a olho nú.

Estas variáveis estão a disposição do fotógrafo operador, através delas ele irá criar uma imagem carregada de sentido e sentimento, próprios dele. Um fotógrafo consciente diz tanto da cena fotografada como diz de si mesmo. Roland Barthes em sua obra A Câmara Clara (La Chambre Claire, 1980), faz uma análise magnífica do processo do retrato. Onde descreve quatro forças atuantes. Duas sobre o personagem, duas sobre o fotógrafo. O retrato é o resultado desse embate. Um bom retratista é aquele que domina bem a técnica fotográfica e as forças no processo do retrato. Para toda e qualquer imagem que se pretende fazer, o operador poderá se utilizar para seu benefício de todas as variáveis possíveis. Aqui não temos um órgão regulador do processo, que define seus limites e pune os transgressores, não. O que há neste sentido é a regulação por parte daqueles que usam a imagem. Desde o indivíduo que encomenda um retrato seu a um fotógrafo, ao veículo de comunicação que se usa da imagem para transmitir opinião, informação ou publicidade ao seu público.

O processo fotográfico consolida-se na obtenção da tal imagem fixa e estabilizada e suas cópias. Mas o processo não se finda aqui. Inicia-se uma nova etapa onde o fotógrafo operador tem pouco ou nenhum controle. A difusão e a recepção, onde e como a imagem será apresentada, adicionará ainda mais sentidos e sentimentos. Os veículos de comunicação dominam esta parte do processo, e o fazem segundo seus interesses. Se antes a fotografia poderia ser encarada como ferramenta a serviço da ciência, agora ela também está a serviço dos meios de comunicação de massa. E aqueles que não compreendem o processo de veiculação da informação e da publicidade nestes meios, será refém daqueles dominam. Pois não conhecerá a verdade.

 
Continua…