BARBIE (2023): Muito além do cor-de-rosa? Por Bruno Yashinishi

O ano de 2023 parece demonstrar uma significativa retomada do público cinematográfico no contexto pós-pandemia. De fato, as superproduções já lançadas e com previsão de estreia para o ano têm levado multidões às salas de cinema e lufada ao consumo da indústria cultural.

Além de “Oppenheimer”, de Christopher Nolan, “Indiana Jones e o chamado do destino”, de James Mangold ou de “Super Mario Bros: o filme”, de Aaron Horvath e Michael Jelenic (que já ultrapassou a cifra de 1,3 bilhão em bilheteria), o filme “Barbie” é um dos maiores lançamentos de 2023. Já na semana de estreia, o filme dirigido por Greta Gerwig tem conquistado milhões de espectadores, certo apreço da crítica e, sem dúvida, um dos maiores investimentos em propaganda e marketing de todos os tempos em termos de cinema.

Esse sucesso comercial era previsto e inevitável. Há décadas, Barbie domina o mercado de brinquedos, estabelecendo a Mattel como uma das mais poderosas e influentes empresas do século XX. As histórias de Barbie, da Mattel e da empresária Ruth Handler (1916-2002) se confundem. O livro “Barbie e o império da Mattel”, da historiadora Robin Gerber, explora muito bem essa questão. Pelo menos desde 1997, quando a banda dano-norueguesa Aqua lançou o clipe “Barbie Girl”, os fãs da galinha de ovos dourados da Mattel aguardavam ansiosamente por um live action decente da boneca Barbie. E assim se fez.

O filme “Barbie” traz Margot Robbie no papel principal, Ryan Gosling como Ken e Will Ferrell como o dono da Mattel. A cena de abertura é a melhor de todo o filme. Greta Gerwig, intencionalmente ou não, começa “brincando” com o espectador ao referenciar o clássico “2001: uma odisseia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick. Nessa cena, algumas meninas brincam com bonecas infantilizadas. A narradora nos diz que, nos primórdios, brincar de boneca era brincar de ser mamãe. É então que surge a Barbie, adulta, loira, “esteticamente perfeita”, assim como o monólito alienígena em “2001”, inclusive com a mesma trilha sonora, “Assim falou Zaratustra” (1896), de Richard Strauss.

A partir daí, o que se desenrola durante a trama é uma estória simples, previsível e até mesmo insossa. Porém, sob o prisma do explícito e não do implícito, ou seja, das entrelinhas. Evidentemente, o filme foi produzido para todos os tipos de público, mas é o infantil seu maior alvo, portanto, não vamos esperar que este fosse ao cinema para contemplar um “Tractatus Logico-Philosophicus”. Mas é possível pinçar algumas reflexões filosóficas e sociológicas de “Barbie” para além do cor-de-rosa.

Por exemplo, voltando à cena de abertura, em “2001”, o contato dos símios primitivos com o misterioso monólito fez com que a inteligência dos primatas evoluísse ao ponto de desenvolverem a capacidade de manusear ossos como instrumentos de caça e de guerra. Em “Barbie”, o contato das crianças com a boneca desenvolve nelas a vontade de brincar com uma figura feminina adulta e estereotipada. Ao contrário de uma progressão gnosiológica impulsionada por algo extraterrestre, Barbie cria uma espécie de estagnação do lúdico formatado em padrões femininos estabelecidos socialmente, que por sua vez, foi legitimado por homens e não por mulheres.

Barbie, Ken e seus amigos se divertem, cantam, dançam e vivem em Barbieland como se viveria em qualquer Terra do Nunca, Neverland. As mulheres se chamam Barbie e os homens se chamam Ken, exceto Alan (Michael Cera). Platão dizia que o mundo inteligível, o hyperuranion, era o reino perfeito das formas, das ideias. Esse mundo seria o real, enquanto que o mundo sensível, material, corruptível, seria apenas mimético, imperfeito. Dessa forma, os homens deveriam buscar saírem da “caverna” dos sentidos enganosos e contemplar as ideias eternas do mundo das Ideias. Com Barbie acontece justamente o contrário. Sua existência onírica em Barbieland torna-se comprometida quando a boneca começa a humanizar-se, pensar na morte, ter varizes e até mesmo tocar o solo com os calcanhares, inadmissível a todas as Barbies.

Intrigada, Barbie trata de investigar o que está acontecendo. Para isso, ela deve conectar-se ao “mundo real”. Assim, descobre a história de Gloria (America Ferreira) e de sua filha Sasha (Ariana Greenblatt) e suas relações com a boneca. Tentando consertar as coisas, Barbie e Ken aventuram-se pelo mundo real, passando por constrangimentos, problemas com a polícia, crises existenciais e perplexidade diante de uma realidade formada sob a égide do patriarcado histórico e estrutural. Patriarcado que seduz Ken e o faz reformular Barbieland, causando uma série de problemas em um mundo antes “perfeito”.

No fim das contas, Barbie é levada até a sede da Mattel, foge novamente para Barbieland, consegue reestabelecer a ordem e o sistema com ajuda de Gloria e Sasha, ajuda Ken a encontrar uma redenção e… não acaba feliz para sempre. Aqui está um ponto muito importante do filme. Barbie sente a necessidade ontológica de humanizar-se e percebe que a organicidade, a vulnerabilidade e o fim inevitável das coisas são partes fundamentais da realidade da vida e de uma vida real. Seria então o filme “Barbie” uma grande sátira social, uma crítica aos estereótipos feminizados, ao machismo, ao patriarcalismo, à indústria cultural e à própria marca que influencia tantas gerações até os dias atuais?

A resposta definitivamente é negativa. Apesar de trazer alguns dos elementos supracitados, “Barbie” é um produto, um típico artefato comercial moldado pela grande indústria cinematográfica hollywoodiana. Theodor Adorno e Max Horkheimer ficariam felizes se pudesse o assistir e reforçar suas teses sobre a indústria cultural em “Dialética do Esclarecimento”. O filme pode até ser bem visto por críticos, militante ou intelectual, mas não representa com tanta relevância as reivindicações dos movimentos sociais das minorias, muito menos estabelece efetivamente uma crítica à superestrutura como outrora fizeram outras obras cinematográficas. Claro, a intenção nem era essa.

Por fim, não há nada muito além do cor-de-rosa em “Barbie”. Entendamos aqui esse “cor-de-rosa” não como mais um estereótipo de feminino ou do sensível, muito menos da infância, da inocência ou brincadeira com bonecas, mas sim como um sinônimo da artificialidade, do mundo supérfluo e inexorável da realidade paralela demonstrada no próprio filme. Apesar disso, a obra em si está esteticamente bem desenvolvida e com referências muito inteligentes. Além de “2001”, há referências de “Matrix” (1999), na cena que Barbie deve escolher o salto ou a sandália; a “Cantando na chuva” (1952), nas cenas coreografadas e musicais; e a “O poderoso chefão” (1972), nas cenas de Ken e seu fascínio pelos cavalos, como também há uma cena com Vito Corleone (Marlon Brando) passando na TV.