No começo de todo filme de desastre tem cientista sendo ignorado – Por Bruno Yashinishi

 

Esse texto vai doer. Vai doer em todos os canalhas que estão disseminando Fake News sobre os desastres naturais no Rio Grande do Sul e em outras regiões da América do Sul, como no Uruguai, por exemplo. Já começo apresentando uma arma (contra Fake News, que fique claro).

A foto que escolhi para ilustrar essa coluna e, inclusive, dar-lhe título, foi tirada de uma rede social. A conta do Instagram da Mídia Ninja (@midianinja), jornal alternativo e combativo como o nosso, postou essa foto no dia 09 de maio, de um homem segurando um cartaz com dizeres que batizaram esse texto. No entanto, a Mídia Ninja deixou claro que publicou essa foto repostando uma publicação do Instagram de Renata Boldrini (@renataboldrini) jornalista especializada em cinema, que havia publicado a mesma imagem no dia 08 de maio.

“Bom, mas pra quê tanta informação logo no começo do texto?” “Será que tá querendo lacrar em cima do assunto também?” “Quer dar aula de ABNT agora pra citar referência de quem postou de não sei quem?” “Posta a imagem e escreve logo o que quer escrever poxa!”

Tá doendo já? Ainda nem começamos. O que se pretende aqui nesse pequeno texto é utilizar um bisturi. A arma apresentada acima foi só pra acuar os “Fakenistas” (neologismo tão desgraçado quanto àqueles a que se refere).

Em primeiro lugar, o pequeno exercício do primeiro parágrafo é a lição mais basilar de todo processo comunicativo, em todos os meios de comunicação imagináveis, desde as fumaças usadas por diferentes etnias indígenas ancestrais, passando pela primeira cartinha que sua mãe (ou vó) escreveu e mandou pro seu pai (ou avô), em uma era da sua pré-história, chegando até os meios de comunicação analógicos e virtuais (ou ainda os pós-apocalípticos de IA).

A lição de Ouro, que (se depender de Francisco, o papa) será o 11º Mandamento: “Não publicarás nada antes de checar as fontes. E vos digo mais! Checarás não só a fonte, mas também sua fidedignidade! Só assim meus irmãos, sereis felizes”. Bonito. Amém.

Continuando, acredito (mas devo checar as fontes) que nem eu, nem a Mídia Ninja e nem Boldrini saibamos quem é o homem que segura o cartaz e em qual contexto a foto foi tirada e postada. Entretanto, o contexto da frase eu sei. Saiba você também, é só checar. Dói?

Se na hora do almoço, a senhora está com pressa pra preparar sua refeição, mas viu no que os brasileiros rebatizaram como “Zap” que o Lula pegou todo o dinheiro arrecadado para ajudar as vítimas das enchentes gaúchas, dói conferir antes de mandar pra outros 37 grupos diferentes? Se o senhor que está deitado no sofá e depois de assistir um “react” de tiro de uma Magnum 44 atravessando oito melancias há 20 metros de distância recebe um vídeo falando que Deus agiu rápido para nos avisar das consequências do show da Madonna no Brasil, afogando carros e cavaleiros em um prenúncio (melhor posfácio) do Dilúvio, dói conferir antes de guardar essa informação pra emporcalhar o almoço de domingo na família?

Enfim. Todos sabem distinguir o fato do fake. Os que ainda não sabem são porque intencionalmente assim o querem. E é isso. Um bisturi não serve de cotonete.

Voltando à foto, de fato. “Armagedon” (1998), “O dia depois de amanhã” (2004), “Não olhe para cima” (2021), ou ainda, “Tubarão” (1975), “Godzilla” (1954) ou “King Kong” (1933), são apenas alguns de muitos exemplos de filmes em que as catástrofes foram previamente alertadas por cientistas. As consequências já sabemos. A analogia do cartaz é boa e até satírica, mas os fatos são sérios, tristes e ainda amedrontadores.

Pior ainda é o sofrimento das vítimas das tragédias em curso ser lapidado, manipulado, instrumentalizado pelas Fake News. A maior solidariedade que o povo brasileiro necessita é o simbólico (que une) e não o diabólico (que desune). Se nos unirmos todas as dores serão menores.

Em sua primeira Carta Encíclica como chefe da Igreja Católica, “Laudato Si` sobre o cuidado da casa comum”, de 2015, o papa Francisco já prenunciava: “Tanto a experiência comum da vida cotidiana como a experiência CIENTÍFICA demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres”.

O texto termina aqui em luto pelos que morreram e em respeito a verdadeira dor das famílias.

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