Um enigma de 60 anos: “Os pássaros” (1963), de Alfred Hitchcock – Por Bruno Yashinishi

Um enigma pode ser definido como algo ambíguo, incompreensível, que deve ser decifrado. Também significa alguma coisa difícil de entender, mas dotada de qualidades e peculiaridades. Ambas as definições aplicam-se a um dos filmes mais importantes e controversos da história do cinema: “Os pássaros”, de 1963, dirigido por Alfred Hitchcock.

Geralmente, a ambiguidade não é tão bem vista na indústria cinematográfica. O sucesso comercial de um filme depende em grande parte da facilidade de seu significado e do acesso às suas mensagens pelos seus espectadores. No entanto, existem alguns cineastas que decidiram romper com as convenções impostas pela indústria e explorar de forma inusitada as possibilidades da linguagem cinematográfica. Um luxo permitido a poucos, como o caso de Alfred Hitchcock, o “Mestre do suspense”, um dos maiores artistas do século XX e indiscutivelmente um dos melhores diretores de cinema de todos os tempos.

Com filmes de grande prestígio, como “Rebecca” (1940), “Um corpo que cai” (1958), “Intriga internacional” (1959) e “Psicose” (1960), por exemplo, a filmografia de Hitchcock é repleta de inteligência, destreza no uso da linguagem do cinema e certo requinte que confere à assinatura do diretor um valor artístico próprio. Em 1963, Hitchcock estava no auge de sua carreira quando lançou “Os pássaros”. Seu filme dividiu opiniões. Por um lado foi considerado uma expressão genuína do horror e uma obra de arte, por outro, foi tratado como uma anomalia criativa de seus realizadores. Apesar disso é unanimemente um dos maiores filmes dos anos 1960.

A trama de “Os pássaros” é baseada em um conto de Daphne Du Maurier e traz a estória de Melanie Daniels (Tippi Hendren) que, em um pet shop, conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), descobrindo sua identidade só após uma longa investigação pessoal. Mitch procurava por um par de periquitos para presentear sua irmã mais nova e Melanie faz questão de levar as aves até o seu paradeiro, na cidade costeira de Bodega Bay.
Após idas e vindas, a Srta. Daniels e Mitch finalmente se conhecem, mas em uma ocasião inusitada. Melanie é atacada por uma gaivota antes de atracar ao cais, sendo socorrida por Mitch em um pequeno restaurante. Depois disso, o casal começa a se tornar mais íntimo, apesar do evidente ciúme que Melanie desperta na mãe de Mitch, a Senhora Lidya Brenner (Jessica Tandy).

Tudo ocorre de forma aparentemente normal. A trama é simples, mas traz diversos elementos complexos da natureza humana, como o complexo de Édipo e a busca pela autonomia feminina, por exemplo. Acontece então que, durante a festa de aniversário de 11 anos da irmã de Mitch, um ataque furioso de gaivotas desaba sobre os convidados. Daí pra frente, as personagens enfrentam sucessivos ataques de pássaros, em suas residências, nas ruas, na escola, por toda parte. Esses ataques inesperados levam à destruição da cidade e a diversas vítimas fatais, violentamente perfuradas pelas bicadas dos voadores. As cenas finais são surpreendentes, aterradoras e de um suspense só mesmo produzido por Hitchcock.

Além dessa narrativa diferenciada, a questão técnica do filme também é fora dos padrões. Os cenários complementados com pinturas, os efeitos visuais e práticos de grandes pássaros de borracha atacando as pessoas e a utilização dos sons dos animais gera agonia e garante boas doses de horror. No entanto, a grande questão do filme é: “Mas, afinal, por que os pássaros atacam?”. Aí reside o enigma que perdura seis décadas e até hoje intriga aos espectadores de “Os pássaros”. O próprio Hitchcock sempre se esquivou de explicações sobre seus filmes, sobretudo sobre este. Na sequência final, o diretor não incluiu o “The end” por considerar que o terror não acabou ali.

Vários teóricos, filósofos, críticos ou mesmo cinéfilos elaboraram diversas teorias na tentativa de alcançar o filme de Hitchcock. Em suma, ambos concordam que as possíveis respostas não são mais importantes do que as questões suscitadas pela obra. Dessa forma, o enigma de “Os pássaros” ainda sobrevive. Assim como uma obra conceitual e filosófica, o filme de Hitchcock provoca debates e faz pensar sobre a relação entre o ser humano e a natureza, a fragilidade das pessoas diante do medo coletivo e inesperado e, claro, uma boa dose suspense, como só Alfred Hitchcock é capaz de servir.