Entrevista: Clóvis Chiaradia um arqueiro dos anos 40 e 50

 

José Luiz Martins – Dando continuidade  a serie de publicações  sobre a história do futebol ourinhense , o Jornal Contratempo   publica  hoje a primeira parte de uma entrevista realizada em agosto de 2010 com Clóvis Chiaradia, médico anestesiologista e ex-prefeito de Ourinhos que viveu dentro de campo as emoções do futebol ourinhense de décadas. Amanhã 14 de agosto de 2023 completa-se dois  anos de seu falecimento em 2021 aos 86 anos.

Muitos leitores desta coluna devem conhecer um pouco da história das duas equipes mais importantes na história do futebol em nossa cidade, muitos outros ainda, pelo menos já ouviram falar do Esporte Clube Operário e Clube Atlético Ourinhense nos seus áureos tempos. Tempo remoto em que as duas equipes dividiam a simpatia dos amantes do  futebol na cidade. Tal qual o viaduto de madeira que erguia-se sobre os  trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana,  ligava a cidade de cima, onde estava a maioria dos torcedores do Ourinhense, com a cidade abaixo da linha onde se concentrava a imensa maioria dos torcedores do Operário. O auge das duas equipes se deu durante os anos 40 e 50, também um período de muitas transformações urbanas, econômicas, políticas e sociais no município. 

Amante da bola desde sua infância, Clóvis  presenciou  aquele período em que uma partida entre as duas equipes era sempre um grande acontecimento na cidade. Do auge ao desaparecimento do Operário, as tentativas frustradas no profissionalismo de ambas as equipes, a força do futebol varzeano, ao grande intercambio futebolístico regional; ele atravessou duas décadas presenciando fatos e protagonizando momentos que compõe a história do nosso futebol.

Foi atleta juvenil atuante como zagueiro central que depois de uma fratura no braço, foi atuar como goleiro até que teve se dedicar aos estudos a partir de 1954. Nos tempos de chuteiras já (ou quase) penduradas, reuniu um grupo de entusiastas para tentar reerguer o Operário no inicio dos anos 70, apesar dos esforços a tentativa foi infrutífera.

Depois de formado em medicina, por amor a camisa, foi ser o médico da equipe do Ourinhense, que se aventurou ingressar novamente no profissional entre 1976 e 1977. Futebolista apaixonado, o doutor Clóvis sempre foi um palmeirense “doente”. Fanático ao ponto de, quando era prefeito, recepcionar o folclórico cartola e dirigente corinthiano Vicente Matheus em Ourinhos, vestido com as cores do  seu “alviverde imponente” do coração. Essa atitude segundo ele, foi para deixar as coisas em seus devidos lugares. E foi assim com bom humor e recordações  que o “Cônsul Honorário da Sociedade Esportiva Palmeiras” em  Ourinhos há muitos anos,  me recebeu em sua casa para entrevista sobre a sua, e as outras histórias do futebol ourinhense.

Como foi sua chegada a Ourinhos, o que mais chamou a atenção do garoto Clóvis na nova cidade?

Eu nasci em Botucatu em dezembro de 1934, em 1940 viemos para Ourinhos. Meu pai trabalhava como guarda- livros, o correspondente ao contador dos nossos dias, ele veio gerenciar os negócios do tio Silvano Chiaradia que tinha a Industria Gráfica Chiaradia. Ficava na Rua Nove de julho ao lado onde hoje é o teatro Miguel Cury, era maior gráfica da região, inclusive produziu todo trabalho gráfico da cidade de Londrina (município desde 1934) que estava surgindo, tudo foi feito na gráfica Chiaradia. Fomos morar no começo da Rua São Paulo, junto aos trilhos da Rede Ferroviária. A casa era ao lado de uma serraria, acho que ainda tem essa serraria lá.  Nos meus primeiros anos aqui em Ourinhos o que me chamou muito atenção era um viaduto que ligava a cidade de cima com a cidade de baixo.  Ele nascia na rua em frente à estação ferroviária e atravessava os trilhos descia na Avenida Jacinto Sá.  Era uma construção muito grande de madeira que um certo dia, um trem com uma carga muito alta bateu e destruiu. Acho que quando garoto o que mais me impressionou foi esse viaduto e o acidente que acabou com ele. Depois foi o futebol, meu pai gostava muito e desde que chegamos aqui virou torcedor do Esporte Clube Operário, infelizmente ele morreu cinco anos após nossa chegada. Durante minha adolescência fui muito ligado ao esporte, um pouco menos no tempo em que fui estudar em São Paulo no Colégio Roosevelt da Rua São Joaquim e depois medicina na Universidade Federal de Curitiba.

Como era o ambiente esportivo na cidade naqueles anos, principalmente do futebol?

Entre as décadas de 40 e 50, Ourinhos deveria ter de 15 a 25 mil habitantes que se dividiam entre as duas  maiores forças no futebol na cidade, Operário e Ourinhense. Naturalmente eram times amadores, nos anos 40 não se pensava em futebol profissional ainda e a rivalidade já era muito grande. Eram memoráveis as partidas entre os dois times, pra você ter uma idéia no dia em que o Brasil disputou e perdeu o título da copa de 1950, acho que era 15 de junho, teve uma partida entre Ourinhense e Operário. Naquele tempo não tinha televisão e o jogo do Brasil era transmitido pelo rádio não tinha rádio portátil ainda e ninguém ficou em casa, no dia da decisão do mundial de futebol todo mundo foi pro campo assistir Operário e Ourinhense. O povo se interessava mais pelo jogo entre os dois times da cidade. Tanto o campo do Operário quanto do Ourinhense  as arquibancadas eram pequenas , mas chegava a juntar  entre 5 a 7  mil pessoas para torcer pelos dois times. Praticamente gente de todas as camadas sociais da população compareciam a esses jogos.

Além do futebol amador, o varzeano também já movimentava a cena futebolística na cidade?

Lembro-me da época que começaram os campeonatos varzeanos que eram muito concorridos, tenho a impressão que muito mais concorridos do que hoje em dia. Quando os campeonatos de várzea começaram a ganhar força, o Operário tinha parado não tinha mais aquela rivalidade com o Ourinhense.  A rivalidade e a atenção passaram a ser entre os times das vilas que jogavam o varzeano que era bem disputado. Naquele tempo tinha os times da vila Nova, vila que mais tarde passou a ser chamado de Margarida, Corinthians, Paulistinha, Sete de Setembro.   Tinha os times da vila Odilon, vila Emilia, Shell, Ouro Branco, vila São Luiz, eram muitos além de outros que foram surgindo. Havia vários campos então o varzeano tinha espaço e grande movimentação, o futebol amador oficial só começou em 58 com a criação da Liga Ourinhense de Futebol.

 

Qual foi a equipe que o Sr. começou a jogar futebol?

Comecei a jogar no time juvenil da Shell por volta de 1949, era um time muito famoso que jogava nas dependências da companhia na Rua Rio de Janeiro, havia um campo muito bom lá.  Me lembro que jogávamos eu o Ranilson Viana, Fuad Abujamra, Pedrinho e o Mário Tupiná, tinha os japoneses Silvio Sasatani que era muito bom de bola, o Paulo Tone que jogava um bolão e o irmão dele também o Satoro Tone.  Entre os anos 50 e 52 joguei também no juvenil do Operário, Ourinhense e no time da vila São Luiz.  Uma passagem que me lembro foi quando estava no juvenil do Ourinhense, na véspera da inauguração (1951) do estádio da baixada, foi formada uma seleção para enfrentar o Clube Atlético Ipiranga de São Paulo que era um grande celeiro de atletas. Eu estava na equipe e vencemos o Ipiranga que era o campeão juvenil no estado. Houve também uma movimentação grande no futebol entre estudantes, durante as férias escolares havia campeonatos estudantis com times daqui e da região.  O pessoal costumava montar uma seleção com os estudantes de Ourinhos que estudavam fora, que disputavam com a seleção de estudantes moradores na cidade.

Continua na próxima edição

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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