Viela do Recanto dos Pássaros foi palco para espetáculo inspirado na obra da escritora Carolina Maria de Jesus

A peça dirigida por Valfredo Inforzato foi apresentada no bairro de Ourinhos a convite do Coletivo Crewatividade e dos organizadores da iniciativa Natal Feliz Recanto dos Pássaros

No último sábado, 10 de junho, aconteceu ao ar livre e com acesso livre e gratuito, na Viela Maria José Milane, no bairro Recanto dos Pássaros de Ourinhos, o espetáculo “Fala da Fome”. A apresentação aconteceu a convite do Coletivo Crewatividade e da iniciativa Natal Feliz Recanto dos Pássaros e, na mesma data, pela manhã, os moradores e moradoras do bairro se organizaram para limpar a viela e deixá-la preparada para receber o espetáculo.

Foto: Brisa Kalene

A peça, dirigida pelo ator, diretor e professor de teatro Valfredo Inforzato, é baseada no livro “Quarto de Despejo” de Carolina Maria de Jesus. O livro é um diário escrito pela escritora e poetisa, que era moradora da Favela do Canindé e nasceu em Sacramento, Minas Gerais. Carolina saiu de seu local de origem, que ficava a 500 km da cidade de São Paulo, fugindo da miséria e da violência, numa jornada que percorreu a pé e sozinha até a capital paulista. Chegando lá, trabalhou como empregada doméstica na casa de um médico e, nos finais de semana e momentos de descanso, ao invés de sair, preferia ficar na biblioteca de seu patrão, lendo. Estudou até o 2º ano do primário na época, e aprendeu a ler e escrever sozinha (autodidata). Em seu livro, Quarto de Despejo, Carolina relata seu dia-a-dia em primeira pessoa, conta seu cotidiano como catadora de recicláveis. A autora teve 3 filhos, um de cada pai. Na primeira gravidez, foi despedida do trabalho que exercia como doméstica na casa do citado médico, e foi morar na Favela do Canindé. Certo dia, um jornalista foi fazer uma reportagem sobre as condições de vida das pessoas habitantes daquela comunidade, e todos ali falavam que ele deveria entrevistar a Carolina poeta. Ele foi então ao barraco dela, onde foi apresentado a seus caderninhos. Eram cadernos que ela encontrava no lixo, dos quais arrancava as páginas usadas, utilizando as folhas em branco para escrever seu diário.

Foto: Danilo Santos

O jornalista fica, então, impressionado com o que lê. Aquela escrita simples, com alguns erros de português, continha uma elaboração de pensamento erudita. Ele decide publicar alguns trechos na revista “O Cruzeiro”, nos anos 1958 e 1959. Em 1960, ele publica o livro “Quarto de Despejo”, lançado nesse mesmo ano na Bienal do Livro, com grande sucesso. Carolina vende muitos exemplares já naquela noite de autógrafos, e com o dinheiro dos livros compra um apartamento em Santana, zona norte de São Paulo, onde passa a viver. Sofre muito preconceito por ser preta e ex-favelada nesse novo local. Cansada disso, compra uma chácara na Grande São Paulo, para onde se muda. Com outra parte do dinheiro, ela grava um disco de samba, chamado igualmente “Quarto de Despejo”, do qual algumas músicas são utilizadas no espetáculo dirigido por Valfredo Inforzato.

Foto: Danilo Santos

“O espetáculo tem 6 personagens, pelas quais fui dividindo as falas da Carolina de acordo com alguns perfis psicológicos e alguns traços de personalidade da autora. Todas as falas são retiradas do livro e mantenho alguns erros de português presentes na obra. O conhecimento dela, ainda assim, demonstra-se muito erudito e a escrita dela era muito crítica sobre a posição política da época, da Igreja, de como as pessoas pobres eram tratadas, da questão da fome, da miséria…”, conta Valfredo Inforzato.

O diretor também comenta que ter apresentado a peça na Viela do Recanto dos Pássaros foi uma experiência muito rica para si e para o elenco. “O Recanto dos Pássaros/Vendramini é uma região que tem suas carências, e parte delas são abraçadas pelo espetáculo: a questão da fome, de certos momentos de desesperança e da luta diária para se vencer. Vencer a fome é mais difícil que vencer um leão. Tivemos uma receptividade, uma sensibilidade incrível do pessoal que nos assistiu. O espetáculo também toca pela questão da representatividade, o teatro tem esse poder de dar voz às pessoas e dizer aquilo que elas não têm oportunidade de expressar. É uma representação do palco, mas também do pensamento”, destacou Valfredo.

Para Danilo Santos, um dos idealizadores da iniciativa e do Natal Feliz Recanto dos Pássaros, a experiência do espetáculo foi muito gratificante e os organizadores pretendem fazer novas ações como essa, com o objetivo de levar cultura, conscientização, lazer e conhecimento para os bairros mais afastados da cidade.

“Eu, Danilo Santos, e a Andreia Santos, que somos fundadores e idealizadores do Natal Feliz Recantos dos Pássaros, iniciativa que existe há 12 anos, junto com o Dionão e a Sara, e junto com o Coletivo Crewatividade, no qual faço parte junto com meu amigo irmão Walter Alves, sempre tivemos a ideia de trazer o teatro para o bairro Recanto dos Pássaros. Esse espetáculo, especialmente, fala muito da realidade daqui. Em conversa com o diretor Valfredo, conseguimos trazer a peça para o bairro, trazendo um pouco de cultura e uma realidade que é muito presente. Foi muito lindo! Muitas crianças, as pessoas em geral que assistiram, depois comentaram que foi lindo e uma iniciativa muito importante. Muitas pessoas não conheciam o teatro, essa expressão de cultura. Ficamos bem satisfeitos e agradecemos de coração, já pensando nas próximas ações culturais que poderiam ser trazidas para o nosso bairro”.

Foto: Danilo Santos

Ciclo nas Escolas

O espetáculo “Fala da Fome” também vem sendo apresentado em escolas públicas da cidade no contexto do projeto da Secretaria de Cultura com a Secretaria de Educação de Ourinhos, chamado “Ciclo nas Escolas”.

“O retorno que tivemos nos colégios Amélia e José Alves Martins foi impressionante! Pudemos ver ali a emoção das pessoas que assistiram ao espetáculo. Algumas ficam muito emocionadas, porque é algo que, se não todo o mundo, muitas pessoas já passaram na vida, os tipos de dificuldades que a Carolina aponta no diário dela, e são abordados no espetáculo. Outro ponto positivo tem sido o crescimento do elenco, que é formado por jovens entre 14 e 19 anos. A consciência, a sensibilidade, a capacidade de compreensão que a juventude tem, embora muitas vezes seja subjugada, é algo incrível. É legal ver esse crescimento do lado humano e também do profissional, do preparo para a vida desses jovens que estão no elenco. É muito enriquecedor. Eu tenho adorado a experiência e eles também”, conclui Valfredo Inforzato.

A seguir, mais algumas imagens do espetáculo (as fotos são de Danilo Santos):