ERA DE CHUMBO: Elisa e o machismo comunista.

Por João Teixeira

Quais as razões pelas quais uma “mulher de trajetória grandiosa para o Brasil e, sobretudo para as esquerdas”, foi “apagada” da História?
Essa incómoda questão feita em tom de denúncia pelo professor Jorge Ferreira numa obra seminal, Elisa Branco – Uma Vida em Vermelho (Editora Civilização Brasileira, 2003) aponta numa única direção- a condição feminina no Brasil do século XX.
Nesta instigante biografia sobre a costureira de Barretos, militante anônima do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que se tornou súmbolo da paz mundial, o autor conta a virada radical que Elisa sofreu em sua vida desde que protagonizou um acontecimento célebre na História.
Elisa Branco foi presa, julgada e condenada a quatro anos e seis meses de prisão por ter aberto uma faixa de protesto, diante das autoridades civis e militares que assistiam ao desfile de 7 de Setembro no Vale do Anhangabaú, contra o envio de soldados brasileiros á Guerra da Coréia (1950/53).
Elisa cumpriu um ano e oito meses da pena na Casa de Detenção.
Passou esse tempo trabalhando numa máquina de costura portátil que ganhou dos camaradas e alfabetizou as presas encarceradas.
A campanha por sua libertação correu o mundo, mobilizando intelectuais, políticos, religiosos, tornando-a símbolo da resistência contra a opressão.
Ganhou o Prêmio Stálin da Paz e alinhou-se a nomes como Jorge Amado, Aparício Torelly (Baráo de Itararé), Graciliano Ramos, Afonso Schmidt, Rui Facó, Octávio Brandão e Astrojildo Pereira na Campanha da Voz Operária.
Inspirou poesias e foi enaltecida pelo Partido.
“É a dona-de-casa que se pôs á frente da luta contra a carestia da vida, organizando comissões femininas, é professora de costura e alfabetização dos associados do comitê democrático do bairro de Fortaleza, é a destacada lutadora contra a cassação do registro eleitoral do PCB e dos mandatos comunistas. Elisa Branco é a encarnação da bravura e do nobre sentimento de solidariedade das mães brasileiras (…) Sua figura avulta no panorama da grande luta como a de uma leal filha da classe operária brasileira” (pg 77).
A questão é: com todas essas credenciais, exemplo e paradigma para a militância comunista, na luta por democracia, paz, liberdade e direitos humanos, por que Elisa Branco não chegou á cúpula do Partido nem reverteu seu progressivo “apagamento” da História?
Segundo a historiadora Juliana de la Torres, “o PC expressava uma visão tradicional do feminino tornando o lar como espaço por excelência da mulher, associando suas lutas ao bem do próprio lar, dos filhos e da família”.
Para Marcelly Cruz e Eder Silveira, os comunistas investiram em um onde ideal de militante, cujas virtudes reforçaram o papel tradicional da mulher como “mãe exemplar” e “esposa dedicada”.
Nos jornais comunistas, Elisa enquadrava-se neste estereótipo – mãe, esposa, dona-de-casa – atuando no espaço público e organizadora de comissões.
O PCB mantinha uma relação ambígua com as mulheres, destaca Rachel Soiher:
“Por um lado, acentuavam a necessidade de faze-las participar de forma mais incisiva das atividades partidárias, evitando que sucumbissem ás concepcoes burguesas”.
“Por outro lado,reservava ás mulheres um papel subalterno nas instâncias decisórias do Partido”.
Elisa não era intelectual, era operária, apaixonada por Prestes, as discussões teóricas sobre marxismo não lhe interessavam.
Jorge Ferreira destacou: “… chama-nos a atenção pelo menos dois aspectos na vida de Elisa Branco: sua vida privada e o machismo estrutural dos comunistas”.
“… seu casamento me pareceu uma relação muito tóxica”.
O autor mostra em seu livro que nossa brava personagem sofre um progressivo “apagamento” no curso da História.
Elisa Branco teve mais reconhecimento na URSS que no Brasil, “o que, em se tratando de uma mulher, nada surpreende”.

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