Viver nunca foi fácil, entende?

Ultimamente o tema em questão na sociedade brasileira é o da PEC 241 que trata do congelamento do investimento público durante duas décadas. A importância de se debater o mesmo é ululante, mas já existem várias pessoas cumprindo esta hercúlea tarefa. Desta forma, gostaria de discutir um pouco da ideia que temos sobre a felicidade.

Recentemente os intelectuais Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal escreveram um livro intitulado “Felicidade ou Morte”, publicado pela editora Papirus 7 Mares. Ambos discutiram os temas “o vazio da felicidade”; “Ser feliz ou ser livre?”; “A infelicidade do outro”; “Felicidade e amor” e “A felicidade aqui e agora”.

Transbordando erudição e bom humor esses pensadores historicizaram o conceito de felicidade, detectando algumas rupturas e permanências. Geralmente se associa a felicidade a um estilo de vida equilibrado, avesso a grandes sobressaltos. Esta visão permeou vários homens e mulheres da antiguidade. Sêneca tratou desta questão em seu famoso texto: sobre a brevidade da vida.

Durante a idade média o que estava em voga era sofrer para ser feliz. Somente assim se poderia chegar ao paraíso. Escutei recentemente um sargento incentivando um aluno a estudar e o mesmo proferiu: treinamento difícil é combate fácil. Será que nesta frase haveria algumas pinceladas de martírio cristão?

Na carta magna estadunidense, escrita em 1776 havia um artigo que dizia que os cidadãos daquele país tinham o direito de serem felizes. Hegel dizia que somente o Estado é que poderia garantir a felicidade. Nietzsche, no final do século XIX insinuou que uma suposta felicidade só poderia ser encontrada na arte, já que esta última nunca pretendeu dizer a verdade.

Freud, no começo do século XX escancarou que quanto mais civilizada fosse uma determinada sociedade, mais “podados” instintivamente seriam os seus indivíduos. Patologias psíquicas como depressão, síndrome do pânico, suicídio e congêneres derivariam deste emaranhado de castrações.

Sartre e o seu existencialismo evidenciou que “caminhando e cantando, e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não” (Geraldo Vandré). Iguais no sentido de que apenas nos tornamos e somos através da existência, e que não haveria nenhuma essência anterior a nós que poderia determinar e facilitar as nossas escolhas, como acontece com o gato e o cachorro. Estes últimos nunca perderão a sua essência prima.

Criar expectativas é importante e nos auxilia a pensar, mas o único tempo que possuímos é o presente. O passado já foi e o futuro ainda virá. Assim sendo, faz-se interessante pensarmos na ideia do hic et nunc, ou seja, o aqui e agora. Dentro dessa panela ou fôrma, pode-se fazer várias receitas. Talvez o propósito seja este: tente, experimente e enfrente. Viver nunca foi fácil, entende?

André R. da Silva é licenciado em História, trabalha com gestão cultural e adora o Mundo das Artes