MEMÓRIA CULTURAL – “Brilhantes estrelas cadentes” – Por João Teixeira

Há homens que deixam um rastro de luz na trajetória da vida.
Predestinados, produziram muito; breves, viveram bem.
Estes superdotados, parece, tém o dom da criação e da premonição, o de saber que a vida é breve e o de saber quando o relógio corporal deixará de bater no lado esquerdo do peito.
Inquietos, movimentaram-se intensamente, muitos deles infant-terribles, iconoclastas.
Edenilton Monteiro de Araújo, o Edinilton Lampião, jornalista, escritor, músico e compositor, agitador cultural e “filho da chuva”, como se referia a nós, libertários, foi um destes tais.
O intelectual paraibano, que nunca pretendeu agradar grego nem baiano, deixou-nos precocemente, outra marca dos tais predestinados.
E, claro, logo esquecido.
Edenilton Lampião desempenhou importante papel na Imprensa – o jornalismo a que ele me conduziu desde o colégio – e na cultura alternativa dos anos 1970/80.
Espírito Alegre e atilado, criativo de humor corrosivo, dono de atitudes inesperadas e vigorosas, criava chistes inesquecíveis, como emérito criador de neologismos, novas palavras, e sentidos fonéticos nas expressões populares e frases clássicas.
“Ide a mim, Dadá”, sanguinário ditador de Uganda, virou “vinde a mim, o amor”.
“Devagar se vai ao monge”.
“Aviso aos retirantes”.
“Quem ama não mata, tortura”.
Lampião incomodava com estas e tantas outras frases de efeito que viravam modismo no meio estudantil e intelectual.
Em tempos pré-politicamente correto, Edenilton Lampião antecedeu José Simão- o Macaco Simão da Folha – na arte de inventar a piada pronta no cenário político e social da época.
_ Vocês dois são irmãos?!
A indefectível pergunta que eu detestava partia sempre de alguém em algum lugar, confundiam-nos pela semelhança física, diziam, insensíveis ás particularidades de cada um.
As pessoas confundiam Edenilton Araújo- o Edenilton Lampião do jornalismo, com João Teixeira, o mulato Corisco do Jornal da Tarde (JT), nada parecido com o Diabo Loiro do cangaço, os apelidos marcantes que ganhamos na redação do JT.
Nossas vidas refletiam o passado.
Era como se o pernambucano Virgulino Ferreira da Silva – Lampião, rei do cangaço, fosse sósia do alagoano Cristino Gomes da Silva Cleto, o temível cangaceiro Corisco, o Diabo Loiro de cabelos compridos e olhos azuis -, achavam que os dois eram a mesma pessoa.
No redoinho da mente, a projeção psíquica juntava traços afins, transformando dois seres num único.
Egóico, eu ficava p. da vida, farto de tanto desmentir interlocutor, e mudava de assunto.
Pelo sim, pelo não, nós, “filhos da chuva”, éramos amigos de forma pluralista e democrática, fraternos, amantes do amor e da paz.
Por tudo isso, Edenilton Lampião, nosso setorista no astral, “arguto jornalista”, como a ele se referiu o indigenista Cláudio Vilas boas no prefácio de sua obra póstuma Aviso aos Retirantes (Ed. Nós), vivia intrigado com alguns mistérios terrenos.
_ Como é que nunca fui convidado para ser do PCB?! – indagava, incrédulo, Lampião, que mantinha contato com a nata da intelectualidade, o físico Mário Schenberg, os irmãos Vilas boas, Caio Fernando Abreu e Flávio Márcio, Macalé, Gil, Milton, Caetano e as estrelas da MPB.
_ Artistas e intelectuais não são bem vistos no Partidao de tradição obreirista – tentava eu argumentar com ele que compreendia mas não entendia aquilo.
A principal organização de oposição, o PCB de Prestes, clandestino, leninista, ortodoxo, juntava a classe operária mais combativa dos anos de chumbo.
Os comunistas nunca se entenderam com os anarquistas imigrantes europeus – portugueses, espanhóis, italianos – e trotskistas adeptos da Revolução Universal.
O secretismo comunista ainda guarda muitos mistérios.
Só recentemente descobri que o físico- assistente de Eistein – Mário Schenberg era membro do Comitê Central do PCB.
O pau quebrava entre patrões e sindicalistas- disputados pelas esquerdas – no ABC das montadoras e do universo de autopeças, comércio e serviços que sustentavam um bom padrão de vida do operariado paulistano.
Marginalizados da oposição aos militares, restava-nos a única opção, a subversão comportamental, o questionamento dos valores éticos, religiosos, Morais e ideológicos da sociedade que progredia á custa de tantas vítimas.
E tome polca. Novos Baianos. Secos e Molhados. Dzi Croquetes. Leila Dini!. O Pasquim. Movimento. Versus. Zé Celso. Chico, Gil, Caetano, Milton.
A arte e a cultura dos anos de chumbo refletiram a intensa efervescência social e política da época.
Edenilton Lampião, um vendaval que passou pelos principais jornais do País, realizou seu sonho de editar a principal revista alternativa do Brasil, a Revista Planeta, da Editora Três, do judeu-argentino Domingo Azugaray.
Edenilton Lampiao popularizou o jornalismo esotérico- Planeta foi a versão nacional da Planete francesa, de Bergier e Pawls, autores de O Despertar dos Mágicos- frequentando os centros de magia.
Os terreiros de umbanda, seitas de magia negra da Bahia, ufologos do Xingu e praticantes de toda seita e culto ganharam vez e voz na Imprensa.
Planeta vendeu muito e fez sucesso até Alzugaray resolver descapitalizá-para investir num lucrativo nicho que surgia: o erotismo da Revista Homem.
_ lampiao, o roqueiro Raul Seixas (“Aluga-se”) fechou com o general nacionalista (Albuquerque Lima), o Brasil não deve pagar divida externa nenhuma, os banqueiros já levaram muito dinheiro, nós não vamos pagar nada!
Lampião vibrou com a notícia que passei por telefone.
Progressista, Planeta juntou o anarquismo do rock á declaração patriótica do general nacionalista.
O brilho desta estrela cadente logo se apagou.
Edenilton Lampião escreveu uma letra premonitória em que descreve o próprio velório.
Tinha O terceiro olho.
“Joãozinho, meu amigo, estranhamente quieto…”
Viveu pouco, mas viveu bem.
Palavras-chave: memória cultural; brilhantes estrelas cadentes.