“Fale comigo” (2022): a atualidade do terror sobrenatural no cinema – Por Bruno Yashinishi

O ano de 2023 tem sido promissor para o cinema, sobretudo, para o estadunidense. O fenômeno “Barbienheimer” já fatorou quase dois bilhões de dólares em bilheteria (“Barbie” e “Oppenheimer” somados). Logo após a retomada expressiva dos números de expectadores aos cinemas, que marcou uma lufada de ar às salas de exibição, que se viram praticamente isoladas durante dois anos de pandemia, um filme de terror tem chamado a atenção da crítica e do público: “Fale comigo”, que estreou em festivais em 2022, mas só foi lançado ao grande circuito em agosto de 2023.

O filme é dirigido pelos irmãos Danny e Michael Philippou, que se tornaram famosos no YouTube com seu canal de curtas-metragens e paródias de filmes de terror. Desta vez, os Philippou se aventuraram em produzir seu primeiro longa-metragem e têm alcançado êxito nessa empreitada, justamente por realizarem uma obra de subgênero terror sobrenatural, tão solapado e com produções ridículas nos últimos anos.

O sobrenatural é uma categoria interna do gênero de filmes de terror ou horror. Ao longo da história do cinema muitas produções consagraram o valor desse tipo de filme e, consequentemente do próprio cinema de terror. O sobrenatural imperou nas décadas de 1960 e 1970, com grandes clássicos como “O bebê de Rosemary” (1968), “O Exorcista” (1973) ou ainda “A profecia” (1976), entre outros. Nos anos 1980, o subgênero se fez presente em filmes como “O iluminado” (1980) e “Poltergeist, o fenômeno” (1982). Na década de 1990 e de 2000, os filmes “A bruxa de Blair” (1999), “Os outros” (2001), “O chamado” (2002) e “Atividade paranormal” (2007) foram alguns dos mais promissores do subgênero terror sobrenatural. Nas últimas duas décadas a quantidade de filmes desse subgênero aumentou, mas a qualidade decaiu na mesma proporção, com pouquíssimas exceções, como “Invocação do mal” (2013) e “A Bruxa” (2015), por exemplo.

Somente agora em 2023 podemos assistir a um filme pelo menos modesto dessa categoria. “Fale comigo” conta a história de um grupo de jovens que descobre uma relíquia capaz de promover visões, incorporações e contato com os mortos. O artefato macabro é uma mão embalsamada, que teria pertencido a um médium antigo, morto justamente pelo seu poder de contatar os espíritos. Quando essa relíquia cai nas mãos dos jovens Hayley (Zoe Terakes) e de   Joss (Chris Alosio) torna-se um objeto de diversão, uma espécie de droga, cuja experiência sobrenatural é vista como recreativa, tal qual um alucinógeno qualquer.

Dessa forma, os jovens promovem sessões secretas com a mão embalsamada convidando outros jovens para participarem da brincadeira funesta. Nessas sessões deve ser cumprido um ritual: é preciso acender uma vela para agradar aos espíritos, segurar a mão como em um cumprimento e repetir as frases: “Fale comigo!” e “Eu te deixo entrar”. Depois disso o participante recebe por poucos segundos a incorporação de algum espírito, tendo visões, revelações e experimentando o mundo dos mortos, sempre filmados pelos celulares dos amigos que participam da sessão.

Como nós espectadores podemos presumir, e o filme faz questão que seja assim, a brincadeira macabra não vai acabar bem. Tudo vai dentro de certo controle até que a jovem Mia (Sophie Wilde) e Riley (Joe Bird), o irmão adolescente de sua amiga, decidem participar, mas desta vez, causando reações inesperadas e abrindo um portal entre esse mundo e o dos mortos, por onde espíritos malignos conseguem atravessar. Mia é uma jovem com poucos amigos e, mesmo após anos, ainda sofre os estágios do luto pela morte da sua mãe, supostamente vítima fatal de overdose de remédios para dormir. Riley é o mais novo a experimentar a brincadeira sinistra e quando o faz deflagra consequências horripilantes inesperadas para todos, inclusive para os espectadores .

Daí em diante, a trama do filme de desenrola na principal proposta do terror, que é oferecer o medo. Os jovens tentam reverter à situação por eles criada através de sua tremenda irresponsabilidade. No entanto, os espíritos são criaturas malignas e tornam-se cada vez mais fortes, principalmente mudando as vidas de Mia e Riley drasticamente. O desfecho final é a melhor parte do filme. Pra quem ainda não assistiu, recomendamos atenção redobrada nos detalhes finais da narrativa.

Em suma, “Fale comigo” não é um filme de terror extraordinariamente aterrorizante. Mesmo assim tem pelo menos quatro pontos fortes que merecem ser destacados aqui. O primeiro é que, no contexto em que foi produzido, ou seja, nos dias atuais, ele se difere de outras obras do mesmo subgênero por não fazer uso do execrável “jump scare”, tão banalizado e usado como tentativa fracassada de sanar a crise criativa. O segundo ponto é que o filme valoriza as questões sobrenaturais, ainda que no começo elas sejam diversão, mas depois ganham de fato a seriedade devida. O terceiro ponto é que os jovens usam seus celulares para filmarem os acontecimentos, compartilham esses vídeos em redes sociais virtuais e depois fazem uso do celular com maior responsabilidade, já que a própria situação saiu do controle e também se tornou mais séria. Por fim, outro ponto forte é a evidente analogia da experiência sobrenatural e da mão embalsamada com a realidade das drogas. O filme não é moralista, tampouco esse nosso texto, mas é inevitável traçarmos esse paralelo que envolve questões além da moralidade, mas antes tocam na boa e velha consciência e responsabilidade.

O terror sobrenatural atualizado em “Fale comigo” nos faz entender que esse gênero ainda pode ter produções muito interessantes pela frente. Uma “retomada do sobrenatural”, talvez. O mais importante para quem assiste a um filme de terror é “deixa-lo entrar”.