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A fotografia e a verdade – Parte 4-4

A fotografia e a verdade – Parte 4-4

Ufa.
O fim, para os fortes que aguentaram as bobagens escritas por este bobo, a conclusão; não menos boba, não menos individual.

Verdades Individuais

 

Não há nada mais verdadeiro pra si, do que uma intenção consciente. Tomaremos como ser consciente o verdadeiro fotógrafo. Aquele que compreende e domina o processo. Não apenas o técnico, o matemático, o físico, mas o artista que se usa de toda a ciência inerente a fotografia afim de se expressar. Como a fotografia é composta de muitos níveis e ramificações no seu processo, o fotógrafo despenderá maior atenção aos aspectos mais acessíveis ou importantes, segundo seu critério e habilidade. O fotógrafo pode ceder algumas partes do processo, como a construção da objeta a ser utilizada ou o processo de impressão da imagem.

São níveis, estágios distintos no processo completo. O operador deve ter consciência deles, mas não tem que necessariamente executar manualmente todos eles. O verdadeiro fotografo é aquele que sabe do processo, domina-o, decide sobre ele. Se o automatiza ou cede uma parte dele, o faz conscientemente, e se decide algo por intuição, como o atraso de um milésimo de segundo antes de apertar o disparador em vista de obter o melhor retrato, o faz por saber dos diferentes resultados estéticos em relação ao instante do disparo. Atende assim a sua vontade, a sua intenção.

Criando uma fotografia carregada de verdade individual. Quando ela for vista por outros, pode ser que a sua verdade corresponda a de outros, se comunique com eles, através de um sentimento subjetivo na imagem, uma comunicação direta com a alma, com o inconsciente do observador. Na cultura Japonesa existe o conceito de comunicação I Shin den Shin, uma comunicação não verbal, sem palavras, gestual, de alma para alma, de coração para coração. A comunicação da intenção do fotógrafo ao seu observador seria como I Shin den Shin imagético. Onde a verdade individual do fotógrafo é transmitida ao observador, se tornando uma verdade compartilhada, quiçá universal.

O observador que não tiver consciência do processo, restringirá ou distorcerá os sentidos e sensações recebidas pela imagem. A afirmação comum de que uma imagem vale mais que 1000 palavras, só erra nas “palavras”, se trocarmos por uma imagem vale mais que 1000 sentimentos, nos aproximaríamos do modo correto de comunicação não verbal feito pelas imagens fotográficas. As palavras, o texto, necessitam que o observador domine seu processo. Que saiba decifrar as orações, frases, palavras, letras, e recompor a intenção do escritor em sua mente. Compreender assim o sentido e o sentimento expresso no texto. Uma pena a imagem fotográfica não ser tão simples assim, ou pelo menos didática em sua forma de deciframento e compreensão. Aqui de novo podemos refletir sobre o nome usual. Grafis da escrita contra typos da impressão. Não lemos ordenadamente uma imagem como lemos um texto, da primeira a ultima palavra da lauda. Com a imagem a sentimos de maneira instantânea, a comunicação é direta, e não existem analfabetos completos, totalmente alheios aos sentidos e sentimentos expressos na imagem.

Como também raramente haverá consenso completo sobre o significado, sobre a verdade individual expressa na imagem. Cada observador, `a sua maneira, fará a sua “leitura”, sua compreensão da imagem. Há teorias que tentam segmentar a imagem, fragmenta-la em pequenos signos e significados, a moda da escrita; ou dizer sobre o sentido de leitura, o que vemos primeiro e o que vemos depois numa imagem, dizendo que lemos ordenadamente `a forma ocidental, de cima para baixo, da esquerda para direita.

Os signos na imagem não funcionam como palavras, mas como raízes dessas palavras, contendo significados diversos dependendo do todo da imagem, da composição completa. Os signos nas imagens se relacionam entre si criando novos sentidos a cada um que os observar. Como não são ordenados como as palavras no texto, a cada observador um novo sentido e sentimento será constituído através dos signos presentes na imagem. O observador da imagem então fará a sua “leitura” segundo uma subjetividade própria, a completude da sua cultura, de formação complexa, depende de todo o histórico do indivíduo, tudo o que ele sabe, o que não sabe, o que sente, e como sente aquilo que sente. Como a razão e intuição se relacionam. O fotógrafo age da mesma forma. No instante do disparo, ele resume seu ser, sua trajetória, sua vivência, sua cultura, tudo. Pois se algo dentro dele fosse diferente, sua decisão consciente e subjetiva do enquadramento e instante não seriam os mesmos.

Assim o fotografo é capaz de se comunicar diretamente a todos os observadores, inclusive aqueles menos instruídos ou letrados, pois a comunicação não se dá a nível intelectivo, mas sensitivo, e claro dentre as sensações o intelecto também será estimulado.

Como operadores e agentes temos que buscar satisfazer a nós mesmos, não ao outro, ao público, pois para buscar satisfazer o outro, definimos o que o outro espera, deseja, anseia. E assim se definirmos um esperar, um desejar, um ansiar, definimos apenas um outro, não todos os outros, sendo essa tarefa de satisfazer a todos os outros insólita. O que é possível é satisfazer a nós mesmos, nosso desejo, nosso anseio, nossa verdade. E se essa verdade satisfazer aos outros será por mera coincidência do acaso, vide intelectuais e artistas incompreendidos em seu tempo. Sendo eles redimidos postumamente como indivíduos `a frente de seu tempo. Suas verdades eram tão individuais que seus observadores não a entenderam, ou não observaram nada verdadeiro no que apresentaram.

Assim tudo o que digo ou mostro (em uma fotografia) é a mais pura verdade individual. Não um fato, não a sua verdade. Chego a conclusão de que a única verdade que perdura é a verdade da arte, pois parte de uma verdade individual, não necessitando aceitação ou crença de seus observadores, seu processo de criação é único e não regulamentado por algo externo a ele. Verdades criadas segundo processos estabelecidos por terceiros estão reféns a esses terceiros e suas intenções.

Não há no mundo o absoluto. O eterno ou idêntico. Ideias são assim também, salvo aquele 2+2 são 4, as verdades mudam, o conhecimento se renova, novas perspectivas são encontradas. Mas a Mona Lisa, sempre será Mona Lisa.

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