Salvo as proporções e exemplos, o método é o mesmo.

Há alguns anos (2013), vivíamos um momento de tensão. Manifestações populares dispersas pelo país todo, o estopim foram os vinte centavos das passagens de ônibus na cidade de São Paulo. Mas o movimento cresceu, ultrapassou os limites do transporte público, outros indignados se aglutinaram, com todas as reivindicações possíveis e válidas. Todos juntos, mas sem uma direção clara e objetiva. Sem um alvo, sem uma hierarquia de problemas a serem resolvidos, eram todos jogados ao mesmo tempo, dispersos, sem força de todo. A população protestante já tinha vontade e determinação, mas não havia harmonia nas vozes das ruas.

Vendo tudo isso, quem eu considero como os gênios da atualidade (e não apenas por serem gênios, sejam bons), os donos da mídia, o coletivo de dominadores dos meios de comunicação e informação (ou deformação?) que atuam seguindo um norte em comum, capitaneados pelo grupo Globo, conseguiram então criar o mal a ser combatido. Escolheram um nome, um partido, uma imagem, uma ideia, uma bandeira a ser combatida, derrubada e expurgada da nossa sociedade. A massa que se encontrava nas ruas foi dividida em duas, e nessa divisão, onde antes eram todos contra tudo, agora são uns contra os outros e não mais contra os problemas que se encontram acima deles. Os defensores do discurso midiático ou os contra discurso midiático. Não falarei quem deles está errado, me atento apenas ao criador dessa polarização. A mídia e sua ideologia perversa.

Nessa briga terrena onde degladiamos-nos ideologicamente, há pouco espaço para formação independente dessa ideologia, pois ela já nos vem pronta e repetida infinitas vezes por todos os veículos tradicionais de comunicação. Os defensores e repetidores do discurso afirmam serem bem informados pois assistem a todos os jornais televisivos e leem a todos os jornais e revistas impressos. Mas se esquecem que esses títulos e canais estão todos concentrados em apenas cinco famílias, `a lá Poderoso Chefão, que controlam toda informação veiculada, e que atendem apenas aos seus interesses e de seus parceiros e patrocinadores. Eles não tem compromisso nenhum com a verdade. Apenas interesses comerciais. Assim essa parte da população é manipulada, pois acredita piamente serem detentores e defensores da verdade absoluta, cegam-se para as intenções vis da mídia e se esquecem da pluralidade de opiniões. Dessa maneira não vemos mais seres racionais lutando por direitos, vemos papagaios programados a eterna repetição de discursos simples e tendenciosos. Essa luta terrena, nas ruas, nos bares, nos lares, nas escolas, perdeu seu sentido. A massa rachada briga uma contra a outra defendendo ideias que não são suas, e esquecem que deveriam é estar unidas contra quem está acima (cagando e andando em nossas cabeças). Problemas reais que deveriam ser debatidos com seriedade são deixados de lado, a ideologia contra partidária (pelo menos contra um partido específico) se mostrou consolidada nas ultimas eleições municipais. Qualquer um, milionário ou pastor, é melhor que os daquela corja – assim pensa o papagaio. Há uma onda, ou melhor, um tsunami conservador em curso sobre nós. A ideologia é tão forte, que quem não tem nada para conservar é conservador e beneficia apenas aqueles que os subjugam e os mantém aquém de qualquer poder ou voz.

Hoje, enquanto lutas dignas estão sendo travadas em todas as escolas ocupadas pelo país, a mídia só tenta criminalizar aqueles que tentam ter voz. O que? Esse povo querendo levantar opiniões próprias? Nunca! Vamos entupir a programação de esportes e Biebers – assim pensam os donos da mídia. E funciona mais ou menos assim, se deslegitima algo pela exclusão. Ninguém fala seriamente sobre, então não deve ser sério. E mantemos a briga no nível terreno. Se todos se permitissem apenas um minuto para a reflexão: Mas por que caralhos esses moleques estão ocupando essas escolas? É por que tem sangue de baderneiro e necessitam de serem contraventores? Ou é para uma melhor educação para eles e para todos? PRONTO. É simples. Mas requer esse minuto de pensamento, o que hoje em dia não dá, parar e pensar demora, e dói. Melhor é repetir o que a TV fala – falará o papagaio. E assim segue-se na briga de cegos, onde o caolho que tudo vê, está lá em cima, no éden, sentados em suas poltronas de couro, rindo e brincando com a população.

Retomando a tática utilizada, ela não é nova, mas também não é identificável por todos da população. É necessário dar um passo acima e tentar enxergar o todo. Temos uma grande quantidade de problemas a serem solucionados, em diversas áreas e níveis. Nós, da população, sofremos de impotência e de falta de representação. Alguém que detenha o poder e a voz para nos guiar e solucionar esses problemas. A sacada da mídia foi escolher o problema mor e se colocar como arauto da salvação. Através desse problema salvar a pátria para sempre. A solução perfeita. Corta-se uma cabeça e salva-se a humanidade da desgraça iminente. No momento onde escolhem o mal a ser combatido, surge também o seu oposto, o heroi salvador. Personificado por elementos do judiciário, ídolos em suas togas e seus púlpitos, inatingíveis a nós reles mortais. E são literalmente usados pela mídia, assim que sua função é cumprida, descarta-o e usa-se um novo.

Com o problema escolhido, personificado, com nome e sobrenome, se bate nele, todos os dias, todas as horas, repetidas investidas, julgam-no de todas as maneiras, éticas, morais, econômicas, políticas, de todos os vieses possíveis, tentando atingi-lo. Se mesmo não o matando, pelo menos manchada sua imagem ficará. Enquanto isso, demandas reais e necessárias são esquecidas, se não se fala seriamente sobre, não deve ser sério. Mas esse ai que estão atrás, deve ser o demônio em carne, pois toda a mídia o persegue. Se não fosse mal, não mal falariam dele – “pensa” a ave repetidora. E assim se forma a opinião dos desavisados. A indução de pensamento é tão clara, que os indivíduos acreditam ser reality e não show o que veem.

Tentei não dar nome aos bois, pois acho que os bois somos é nós, que seguimos o ritmo do rebanho, orquestrado pelo pastor ou ventríloquo.

O vídeo em anexo é um trecho de um filme do filósofo e psicanalista Slavoj Žižek. Aqui ele apresenta a forma nazista de escolher e combater um problema, e reparem, qualquer semelhança não é mera coincidência.