O arrocha está em todos os lugares!

É bem comum hoje em dia, quando se liga o rádio no interior do Estado de São Paulo se escutar “arrocha”. É um estilo proveniente da seresta, com pitadas de música brega e romântica, e identificado como oriundo da Bahia. Letras que envolvem traição, lamento, abandono e devaneios de euforia chifruda de macho ressentido são bem comuns. As novas mulheres também aparecem tomando a cena: independentes, hedonistas e liberadoras de vontades reprimidas.

Arrochar é um verbo que significa “apertar com muita força” e “comprimir”. Também pode ser sinônimo de ligar, apertar, acochar, comprimir, espremer, agarrar, abraçar, bater, espancar, pressionar, sufocar, oprimir, amarrar, talhar e congêneres. Arrocho salarial, expressão bastante conhecida de brasileiros e brasileiras, significa grosso modo “corrosão salarial”. Pode ser decorrente de política governamental como também de iniciativas do setor privado.

O que tudo isso tem em comum? Talvez que exemplifiquem com bastante precisão a situação política, econômica, social e cultural que estamos vivendo. Crise de expectativas, crise de representatividade, crise financeira, crise política e assim em diante. Somente esta conjuntura que pode embasar tamanha compressão em todos os aspectos aqui mencionados.

As relações humanas estão cada vez mais liquefeitas e ralas. A indústria cultural domina e dissemina fórmulas manjadas de fácil assimilação para o simples deleite do consumidor sem outro interesse a não ser o lucro. “Tirar leite de pedra” é o ato de arrochar determinado minério para tentar tirar algo que o mesmo não tem, ou que esta prestes a terminar. Se espremêssemos o Brasil e o Mundo, o que sairia? Vazios…?

Em se tratando de Brasil temos a PEC 241/55, Reforma da Previdência Social e várias outras ações que visam conter o deficit público e retomar o crescimento da economia brasileira da forma mais conservadora e reacionária possível: não querem mexer nos velhos privilégios encrustados na sociabilidade cordialesca tupiniquim. Estão evitando ao máximo fazer uma urgente reforma tributária, política e administrativa. Estão arrochando de todas as maneiras, vide a situação do Estado do Rio de Janeiro sendo retaliado pelo Pezão “mãos de tesoura” e as especulações em âmbito mundial sobre a eleição de Trump e os possíveis impactos que a mesma poderá suscitar. É inquietação por todas as partes.

Talvez seja por tanta volatilidade e falta de expectativas transformadoras que a luz no fim do túnel esteja cada dia mais apagada. Será que isso explicaria o atual sucesso do “arrocha”? As músicas em sua maioria só falam de decepção, frustração e tristeza, e geralmente depositam em um terceiro (homem ou mulher) a felicidade alheia que normalmente nunca é alcançada. Tentativas atrás de tentativas. Solavancos, golpes à marretadas. O arrocha está em todos os lugares!

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André R. da Silva é historiador, trabalha com gestão cultural e adora o Mundo das Artes

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