Anos de chumbo – Futebol, ideologia ou alienação?

João Teixeira*
Na Copa do Mundo de 1970, no México, a ditadura militar brasileira (1964/85) estava no auge.
O “milagre brasileiro” (incríveis 11,3% de crescimento do PIB ao ano) enchia a bola dos generais junto aos “…90 milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração…”.
A marchinha do compositor Miguel Gustavo – á época diretor da TV Excelsior, no Rio, e que segundo o jornalista e pesquisador José Ramos Tinhoráo foi um ‘office-boy da ditadura, classificado como um sujeito ‘mau-caráter’ que havia composto “…é Jango, é Jango, é Jango Goulart”, antes do golpe) tocava sem parar nas rádios embalando o Carnaval do Tri, o maior que o Brasil já assistiu.
Segundo Tinhorao, Miguel Gustavo entregou a TV carioca aos coronéis e o demitiu do cargo de redator do principal noticiário da emissora porque ele reclamou da censura.
Adiante.
O fuebol-arte, inigualável, das “Feras do Saldanha” (o comunista João Saldanha, jornalista e técnico da Seleção, o “Souza” do PCB, ao lado de Marighella comandou as grandes greves operárias dos anos 50 em SP) encantava o mundo.
A resistência começava por ele. O general-presidente Médici quis impor Dario (“Dadá Maravilha”) no comando do ataque famoso e ele respondeu:
“O presidente manda em Brasilia; na Seleção mando eu”.
E Pelé, Gerson, Jairzinho Furacão, Tostão – este jogava sem bola, só abrindo espaços no ataque – formaram a inesquecível Seleção Brasileira, a melhor em todos os tempos.
O regime militar, claro, como todos os governos desde a Antiguidade, soube tirar proveito do esporte das massas para se auto promover.
O presidente Médici, no auge da repressão, alcançava 90% de popularidade e aparecia nas fotos cabeceando uma bola e ouvindo jogo no Maracaná lotado num radinho de pilha, uma imagem emblemática dos tempos ufanistas do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Milhares de perseguidos políticos se exilaram mesmo.
Os generais estavam, de fato, ganhando o jogo da política com a economia bombando e a classe média ganhando dinheiro.
Após o AI-5, o golpe dentro do golpe, de 1968, a linha dura militar ganhou a parada dos moderados e o tempo fechou de vez.
A perseguição aos opositores, principalmente ás organizações armadas e clandestinas, marxistas, de extrema-esquerda, foi implacável.
As prisões estavam lotadas de militantes políticos, um fato negado, cinicamente, pelo então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, á Imprensa internacional que clamava pelos direitos humanos.
Estávamos no pior momento das perseguições, torturas, assassinatos, no negror daqueles tempos.
Quando os prisioneiros políticos do Presídio Tiradentes – hoje estação do metrô – foram levados para julgamento na auditoria militar, a poucas quadras de lá, na Av. Brigadeiro Luís Antônio- sentiram, consternados, como estavam isolados do povo que as vanguardas diziam representar na luta de libertação popular.
As pessoas que comemoravam nas ruas a conquista da Copa, batiam na lataria dos camburoes que os transportavam sob cinematográfica escolta com fuzis e metralhadoras, aos gritos de “terroristas, terroristas”.
Foi uma cena traumática para muitos combatentes da ditadura.
Os prisioneiros temeram ser linchados pela turba exaltada.
A propaganda do regime era eficaz em corações e mentes.
Por essa e tantas, o futebol causou quebra-paus infindáveis nas celas.
O esporte bretão era alienante para as massas, na leitura dos esquerdistas mais velhos, stalinistas, ortodoxos, porém os mais jovens não pensavam bem assim.
Menos dogmáticos, mais compreensivos e democráticos, muitos deles compartilharam da emoção popular.
No final, o bom senso prevaleceu, e todos se abraçaram, cantaram e comemoraram a Vitória (4 a 1) do Brasil sobre a Itália.
Assim como a Bandeira e o Hino Nacional, a língua e a moeda, os símbolos da Pátria, a camisa verde e amarela merece o respeito de toda nação.
Nossos símbolos não são propriedade de generais, coronéis ou capitães aloprados de plantão, governantes transitórios da Nação permanente.
Meio século depois da Copa ditatorial, no México, o debate histórico ressurge nesta Copa das Arábias, no Catar desta conturbada democracia em que os nomes dos ministros do STF são mais comentados que os nomes desta legião estrangeira que se tornou a Seleção canarinho.
Palavras-chave: Copa 70; anos de chumbo.
*João Teixeira, jornalista e escritor, integra o Conselho Editorial do Jornal Contratempo.