ERA DE CHUMBO: O Porquinho e o Lobo nos porões.

Por João Teixeira (Colunista)

Alice no País das Maravilhas; Branca de Neve e os Sete Anões; Gastão; Pateta; Os Irmãos Metralha.
E até a Casa da Vovó Donalda (DOI-Codi, da Rua Tutóia) transplantaram o magnífico fabulário de Walt Disney na nomeação de alguns curiosos personagens tupiniquins.
Ao contrário de hoje, em que pespegar um apelido jocoso ou ferino configura bullying, condenando-se o humor negro, há meio século isso era prática normal e comum.
A Era de Chumbo foi pródiga em semear apelidos e codinomes em seus rotundos personagens, independente de ideologia.
O livro A Casa da Vovó, de Marcelo Godói, é leitura obrigatória para os interessados na época.
Godói recriou uma suprarrealidade, uma aparente fantasia de obra de ficção, que era pura realidade.
Anônimos, livres de sua verdadeira identidade, os militares, agentes do Estado que combatiam na “guerra interna”, contra a “subversão comunista” chamavam a tortura de “UTI”, o oficial de “doutor”, no “hospital” subterrâneo, oculto – o Exército clandestino dos porões.
O QG, palco de tortura, sangue e morte, funcionava sob uma sigla anônima atrás do 36 Distrito Policial, no Paraíso.
A “sucursal do Inferno” do DOI silenciava os gritos de dor com música alta.
As masmorras do Dops viviam na escuridão da Estação da Luz.
Lá, sucederam-se algumas ações do já conhecido doutor delegado Alcides Cintra Bueno Filho, conhecido nos bastidores como Porquinho – o beato-queixada vivia com os bolsos e as mãos lambuzados do óleo dos salgados que devorava vorazmente, ás das coxinhas – e também as do sargento PM guerrilheiro da VPR “Getúlio” ou “GG”, Pedro Lobo, que galvanizaram as manchetes dos meios de comunicação dos 60 (jornais, rádios, TV e revistas), o noticiário político e social da década.
Nos porões da “guerra interna”, cada qual em sua trincheira, o Dr. Porquinho mantenedor da lei e da ordem contra a “subversão” marxista, e o Lobo Guerreiro pela “libertação nacional”, foram protagonistas marcantes da Era de Chumbo.
O Dr. Porquinho, este “torturador e carrasco”, no cutelo de Waldemar Luiz Tenório de Lima, de Guarulhos, sobrinho e herdeiro político de Luís Tenório de Lima, líder sindical e ex-membro do Comitê Central do PCB – destacou -se por sua eficiência no combate ao comunismo.
A Guerra não acabou.
Senão, vejamos:
“Brasil, Vietná da América”.
“… criar um, três Vietnas”.
O baiano e professor de português João Leonardo da Silva Rocha, de São Caetano, havia caprichado no discurso do manifesto espalhado na Rua Petrópolis por Lobo durante o fuzilamento do oficial do Exército dos EUA.
O mundo sabia que havia luta armada no Brasil.
Chandler estudava na Escola de Sociologia e Política da Fundação Armando Álvares Penteado.
Apontado como “agente do imperialismo ianque”, o capitão norte-americano de 30 anos matriculou-se com bolsa de estudo concedida pela George Obstead Fundation, em busca do Ph.D pela American University.
Lobo havia sido motorista e segurança de Prestes, secretario-geral do PCB, antes do golpe de 1964.
Abrigava o Cavaleiro da Esperança em sua casa, na zona sul, e via Prestes carregar nos braços seu filho Wladimir.
Não podia haver maior glória.
Lobo abraçou com paixão a luta armada, abandonando em 1967 o PC que condenava esse tipo de luta.
Naquele momento, a casa de Lobo era o verdadeiro QG da VPR, um “aparelho” lotado de armas, explosivos, fardas e muito dinheiro “expropriado” da revolução brasileira.
Os militares lamentavam que ainda estivesse vivos os homens que haviam sido presos pintando as cores do Exército num caminhão, num sítio de Itapecerica da Serra.
Era neste caminhao que o capitão Lamarca pretendia carregar parte do arsenal do IV RI de Quitaúna.
O plano gorou e Lamarca usou sua própria Kombi na deserção.
Nas mãos do inimigo, Lobo nunca imaginou que fosse possível juntar tanto ódio e violência nas sessões de interrogatório.
O Dr. Porquinho interrogava os presos envolvidos no caso Chandler, debochando, rindo de suas convicções políticas.
“Vocês estão loucos…”

 

 

 

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