Imprensa de chumbo

A imprensa sempre foi trincheira de luta. E, como dizia Millôr Fernandes, jornal ou é oposição ou armazém de secos e molhados. Por isso é que nos, colaboradores do Contratempo, combatemos o bom combate em defesa da informação, da reflexão, da crítica independente e dos valores democráticos. Vale a pena resistir aos desmandos do poder para construirmos uma nova sociedade. No terror que foi o golpe civil-militar de 1964, “Última Hora” (UH), o legendário jornal fundado por Samuel Wainer, passou quatro dias sitiado por tropas militares. Os companheiros jornalistas, Miranda Jordão, Mário Patti, Vicente Wissembach, Josemar e tantos outros profissionais ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) caíram na semi-clandestinidade e passaram a viver no próprio jornal.

Os terríveis dias que sucederam ao golpe, de perseguição e violência contra trabalhadores, sindicalistas e dirigentes sindicais, educadores, religiosos e adversários do novo regime de qualquer credo ou tendência- reformistas, legalistas, janguistas, socialistas, comunistas, liberais etc – encheram as prisões e navios-presídios na costa brasileira. Civis ou militares contrários ao golpe passaram a buscar refúgio na redação de UH, no Vale do Anhangabaú. A redação virou refúgio de perseguidos políticos. Os jornalistas improvisava camas e refeições, jogavam xadrez para passar o tempo e dormiam sobre as mesas da redação. Com o prédio cercado, a segurança era dura: quem saísse de lá, não podia mais voltar. Era só um ensaio do drama geral. Depois do Ai-5 (O golpe dentro do golpe, em dezembro de 1968) a situação piorou muito.

Em 1964, á falta de reação popular, afora alguns incidentes isolados, a vida voltou aos poucos ao normal. UH foi pioneiro no jornalismo popular, de investigação e denúncia, porta-voz de categorias profissionais, associações de classe e sindicatos de trabalhadores. Como jornal engajado, de esquerda, defensor da cidadania, dos direitos humanos e das instituições democráticas. Os jornalistas, talentosos, patrióticos e de pena afiada, exercitavam-se nas artes da clandestinidade.

UH estava com os dias contados. Assim como o “Diário de Notícias”, do Rio, cuja dona, Niomar Trindade, passou meses na prisão e foi obrigada a vender o jornal. UH, boicotado pelo poder econômico, foi vendido em 1967 para o Grupo Folhas. O império jornalístico dos Frias e de Carlos Caldeira incluía os jornais Notícias Populares, A Gazeta, A Gazeta Esportiva, UH, Folha de S. Paulo, Folha da Tarde e Tribuna, de Santos. Os monopólios de comunicação são formados como os de qualquer outro ramo da economia. O jornalismo é um negócio como qualquer outro. O peixe maior devora o menor. Vive do lucro. Só que é completamente diferente.

Juliana Neves

Escrevo com a intenção de mudar o mundo ofertando a verdade para a sociedade. Mas a luta é diária e constante, realmente, vivendo e aprendendo e tendo o jornalismo como meu aliado.