CULTURA REGIONAL: “A poesia afrodisíaca de Silvia e O Caminho das Borboletas” – Parte II Por João Teixeira

 

“Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

A máxima iluminista de Lavoisiere aplica-se ás coisas e aos sentimentos humanos.

A metamorfose da existência, tal qual a larva transforma-se no casulo em colorida borboleta, o símbolo da liberdade e da felicidade, explica a segunda parte desta crônica  no transcurso do Dia Internacional da Mulher.

Ninguém como a “nova mulher” que Silvia é, eterniza os mistérios da literatura védica – 345 a.C – que sacralizou o “ciclo de repetidos nascimentos e mortes” do homem.

A poetisa, que se transforma com o vento e só não muda se não há vento, deseja que “cada leitor se sinta tocado por uma borboleta no néctar da transformação”.

Como explicou Maria Graça Melo, poeta e escritora, presidente da Associação Portuguesa de Poetas, “depois de ler o rascunho do Caminho das Borboletas a minha sensação é de que Silvia se serve das palavras, de forma ousada e inteligente, construindo poemas para chorar e rir expressando encantos, desencantos, dores, saudades, amores e desamores, metamorfoseando-se ao longo da vida á espera da oportunidade para sair do casulo e voar em direção á felicidade”.

A grata revelação que é Silvia AA marca uma reversão de tendência dos homens expressarem – principalmente na música – a alma feminina.

“Eu assisti Maysa, mais de uma vez, li Florbela Espanca, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Adélia Prado” – diz a professora e poetisa, formada em Letras e Pedagogia, alertando o cronista:

“Você cita Maysa, e ela faz meu estômago contrair, Elis Regina também. Elas sempre estiveram com um nó na garganta, um grito no peito, uma insatisfação de vida”.

“Também ouvi Chorão, Michael Jackson, Renato Russo, Cazuza. Todos viveram com uma ânsia, se jogaram se corpo e alma na vida, talvez mais corpo e menos alma”.

Silvia AA apresenta-se de corpo e alma, e conta:

“… meus pais ainda residiam no sítio, perdi a conta das vezes que lindas borboletas adentraram pelas janelas e ficaram no alto das paredes sem que conseguíssemos tirá-las”.

“Infelizmente, no outro dia, elas amanheciam sem vida, e minha mãe, em sua simplicidade, as recolhia do chão e com um alfinete espetava-as sobre uma tela pintada com um grande caminho dentre árvores que ficava ao lado da porta, na cozinha, e assim foi espetando as borboletas sem vida, da maior para a menor, no decorrer do tempo”.

A “nova mulher” mostra seu lado infantil:

“… a criança que habita em mim precisa de mais tempo para fazer aquilo que deixou passar quando preferiu ficar adulta…” (A Criança que Habita em Mim, pg 24).

Mostra-se altiva:

“… vai, não olha para trás! Deuxa-me/eu já dei vários passos/o que se fez já é passado/e o meu querer está vazio outra vez” (Bye Baby, pg 64).

Lasciva:

“… eu queria ser o rio/e tocar o seu corpo nu, lentamente; suavemente/beijar seus músculos e membros e ir descendo/de mansinho, de mansinho…” (O Rio, pg 76).

Metafísica:

“…e o significado real do tempo/tempo, tempo, tempo…” (O Tempo passa, pg 95).

“Concluo que foi muito feliz o título O Caminho das Borboletas, pois, no decorrer dos poemas deste livro, vamos assistindo á metamorfose da criança-mulher-poeta que poe a nu vivências vividas ou sonhadas com efeito de transformar o leitor em adepto inconfesso de voar até onde a poesia o possa levar” – conclui Maria Graça Melo. Como os vedas indianos sonhavam a milênios.

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