Livro crítica:  “A estreia de um escritor pronto” – Por Luiz Carlos Seixas

 

Foto Maiara Ferreira

Formado em Farmácia Bioquímica, Biologia e Administração de Empresas, Mário Ferreira levou a sério as recomendações sobre distanciamento feitas pela OMS logo no início da pandemia, em 2020. Uma das mudanças que se impôs foi passar a administrar os seus laboratórios através da Internet, sem sair de casa – Mário é um bem sucedido empresário do ramo da Saúde. E levou seu isolamento tão a sério que, desobrigado das idas e vindas, viu-se com um considerável crédito de horas a serem gastas – ou preenchidas. Foi então que Mário se valeu da Literatura, uma arte pela qual ele não se bacharelou.

O bom leitor de Lima Barreto e Guimarães Rosa experimentou então escrever. Na verdade, a lista de escritores de sua preferência é bem maior: Machado de Assis, Clarice Lispector, Mário Quintana, Rubem Alves, Dostoievsky… E, como prova de que não ouve apenas essa gente morta, Mário também lê o português Mia Couto.
Pois, aos 67 anos de idade, Mário Ferreira resolveu se arriscar no ofício do verbo.

Passou a escrever, para consumir o crédito das horas ociosas ou para povoar a solidão do confinamento. O exercício, ao longo do primeiro ano, rendeu 16 contos que foram juntados em um livro de 220 páginas que tem por título “O primeiro e outros contos”.Logo de cara, vê-se que Mário Ferreira não é “um mero ajuntador de palavras escritas num léxico convencional ou modernoso”, como Vinícius de Moraes escreveu em 1967 no prefácio de Roda Viva, apresentando Chico Buarque ao público leitor.

Ou como diria Truman Capote: Mário Ferreira escreve, enquanto a maioria dos pretensos escritores datilografa. Podia não ser assim, afinal, é apenas o seu livro de estreia. Mas, para a felicidade geral da nação, é!
Se fosse um romance (ao invés de contos), onde houvesse um fio condutor a unir as personagens, o livro de Mário Ferreira poderia nos lembrar Érico Veríssimo (de O tempo e o vento) ou Garcia Márquez (de Cem anos de solidão), dois de seus autores preferidos. Mas, quis Mário dividir em 16 cápsulas o painel de um país continental que vai do atraso tecnológico ao retrocesso civilizatório em pouco mais de meio século.

No passado vivem (na memória e nas páginas de Mário Ferreira) a parteira, a rezadeira, a lavadeira, o chefe da estação, o sorveteiro. É um país que passa empoleirado no carrinho do padeiro, no caminhão de boias-frias, na janela do trem de ferro, no jipe de três marchas que leva o enfermo para uma consulta na capital e o traz de volta para morrer em casa – uma casa de madeira por onde o dia entra pelas frestas.

É um país que ainda levaria um bom tempo para se modernizar e se encher de estupidez. Mas esse dia chega! E o vereador analfabeto, como num passe do diabo, torna-se o juiz ladrão. O time de futebol de várzea vira um partido de aluguel. O terreirão, o secador, a tulha, o paiol e o mangueirão viram madeira ilegal ou uma terra em chamas. E, como se os ponteiros andassem para trás, chegamos a um presente negacionista de fazer o fantasma de Oswaldo Cruz se revirar no Castelo de Manguinhos.

Ao escrever “O primeiro e outros contos”, Mário Ferreira talvez estivesse apenas se cercando, ou indo visitar essa gente de que esteve apartado pelo tempo e depois pelo Covid. Ou, quem sabe, matando saudades do tempo em que ser burro não era moda. Saudades da dignidade dos que iam em procissão tão em falta nas cretinas motociatas de hoje. Nesse aspecto, mais do que dos clássicos da Literatura, foi de Geraldo Machado que eu me lembrei ao ler este primeiro livro de Mário Ferreira. Nos nossos intermináveis dedos de prosa, de vez em quando, Geraldo dizia que no passado o tempo era bruto, mas os homens eram bons.

Luiz Carlos Seixas

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