O dólar e, novamente, a questão institucional

Por Elias Jabbour*

Há quem diga que essa disparada do dólar é síntese de uma “tempestade perfeita”. Expressão de uma possível fuga de capitais e coisas do tipo. Outros, incluindo quem vos escreve, observam de forma positiva dado o papel virtuoso ao setor exportador e, a respectiva inibição de importações predatórias. Gente mais à esquerda se reúne com o campo conservador na uníssona gritaria da relação entre câmbio, alta inflacionária e queda do poder de compra dos salários. Mas, veja: Só o câmbio não guarda suficiência para melhorar a nossa competitividade. O problema é mais de fundo.

O problema central é sobre a expectativa do investimento, variável central de análise econômica. Neste aspecto o problema do câmbio está longe de uma solução, pois este movimento não foi seguido pela instituição de um piso mínimo de equilíbrio industrial. Em outras palavras, pouco adianta uma maxidesvalorização se não houver uma quebra inteira da volatilidade. Ninguém sabe como estará este preço daqui seis meses ou um ano. Complicada tamanha incerteza e suas consequências não somente em possíveis projetos de investimentos e, principalmente, sobre essa loucura arraigada de vícios chamado sistema de formação de preços.

A questão mais problemática é a própria herança da negação do longo prazo. A taxa de câmbio deve ser motivo de apropriação imediata, e futura. Pouco falamos em planificação do comércio interno, quase nada falamos de criação de uma nova ordem institucional capaz de propiciar um ambiente perene ao investimento. A taxa de câmbio, mesmo que sob a égide de um piso, não poderá resolver por si o principal problema estrutural de nossa economia, a indústria. Proteger, via câmbio, é um grande passo primário. Faz enorme diferença, principalmente na reversão de negativas recentes em nossas contas correntes e balanços de pagamentos. Porém, jogar todas as expectativas sobre este preço é algo de um primarismo impressionante. Quase infantil.

Deixaremos de importar muito que poderia estar sendo feito aqui. Por outro lado, nosso histórico de utilização de capacidade produtiva demonstra relação direta com a taxa de investimentos, baixa. A solução do câmbio não é suficiente para alavancar a taxa de investimentos. Assim como algo deverá ser feito para aliviar o passivo de empresas endividadas em moeda estrangeira. O Brasil é um dos países do mundo onde suas empresas mais se endividaram em moeda estrangeira. Ou seja, o câmbio desvalorizado e a anarquia da produção como hoje pode ser fator de quebra de fatias inteiras de capacidades produtivas instaladas no Brasil. Como planejar uma desvalorização cambial virtuosa sem afetar expectativas de investimento e revertendo a lógica da dependência de nossas empresas por países em que o custo da moeda é muito mais baixo que no Brasil? É sobre isto que devemos nos concentrar.

A desvalorização cambial é parte de um conjunto que envolve as políticas monetária, econômica e fiscal como um todo, entrelaçadas. O grande problema é a convivência entre uma taxa de câmbio desvalorizada e volátil com altas taxas de juros que intentam esterilizar os efeitos inflacionários dos movimentos da moeda estrangeira. Ou seu contrário, com uma política de crescimento pautado pelo consumo acompanhado de ultra valorização cambial. Como ocorre hoje a taxa de investimento não expressará a desvalorização cambial, no máximo ocorrerá maior utilização de capacidade instalada e alívio de nossa conte corrente. O crescimento econômico só virá com as garantias mínimas de taxas de juros se aproximando de patamares internacionais e um dólar desvalorizado com administração de divisas estrangeiras mediadas pelo ritmo do valor do dólar dentro do mercado norte-americano.

Devemos responder à altura o chamado da oposição a seus economistas de plantão. A receita deles é o aprofundamento da ordem institucional criada no âmbito do Plano Real. A crise não é produto desta ordem, mas a maxidesvalorização cambial sim, da mesma forma que a próxima ultra valorização no horizonte, pois a instabilidade é a essência da própria ordem financeirizada. A crise é do capitalismo, sem dúvida. Porém, encerrado o capítulo da euforia do consumo, chegou a dura conta a pagar. O tripé macroeconômico, expressão do neoliberalismo, pode até armar a velha armadilha do crédito de curto prazo. Mas, não nos legará condições de pensar no longo prazo. Impede alta da taxa de investimentos. Sepulta esperanças. Será que estão todos certos discutindo economia no campo da ordem do “combate à inflação” e Marx está errado (todo problema econômico é um problema institucional)?

A escolha é nossa. Ou percebemos os fenômenos e a veia institucional do processo histórico ou nos preparamos para sermos atropelados pela história, repetindo o feito dos economistas estruturalistas capitaneados por Celso Furtado em 1964. Com uma diferença. Não virá após o golpe nenhum “milagre econômico”. Virá o fundo do poço. E nós dentro dele. Eis aí um motivo para continuarmos acreditando e sermos consequentes na defesa do mandato da presidenta Dilma. Uma contenda histórica que nossa geração não tem o direito de perder. A obrigação é de ganhar! E vamos ganhar!