Um alienígena negro em São Paulo

Gabriel Grazzini*

Não, para você que conhece. Infelizmente este não é um texto falando de um show do sofisticado rapper Black Alien no Tucanistão. Na verdade este exímio músico é um letrista incontestável do Rio de Janeiro que em seus infinitos versos é capaz de descrever poeticamente a dureza e a sordidez da vida em dias atuais. Foi capaz de antever o futuro já em 2004.

Talvez esta habilidade que por muitos possa ser vista como um dom é produto de suas relações sociais que foram tortuosas desde sua infância em tempos de ditadura, passando por idas e vindas subsequentes que envolvem um meio ambiente hostil de ricos a um negro rico e também de negros a um rico negro. É este preconceito que participou da formação de uma mente astuta.

Bom, sem mais delongas vamos ao assunto: está muito difícil viver coexistindo com as ideias dominantes aqui no Tucanistão. É por isso que redijo o texto desta forma, quero me sentir a vontade compartilhar ideias com pessoas que as compreenderão, concordarão ou não com elas e emitirão seu julgamento. Sabe, isso é humano.

Mas como disse o Raul, e sentem alguns alienígenas negros de hoje em dia, as pessoas só têm verdades a dizer, sem perceber que estas são suas crenças. Ou pior, preferem o silencio assim não sentem o ponto de corte da cunha da opinião contraria lhes sangrar. Não porque não querem a ouvir, mas porque não podem se doar ao luxo de sair de sua redoma imaginaria de fatos fictícios.

Parece-me claramente que isso incomoda também o Chico Sá repórter que depois de demitido da Folha, vem atualmente manifestando a falta que sente das ideias do tempo em que não se podia discutir.

Mas fazer o que? Vivemos em dias que nem em nossas famílias aqueles das camisetas vermelhas são vistos como igualitários e tem de recorrer a um esquizofrênico programa global na madrugada de sexta para saber o que o líder soberano desta nação esta pensando. Calma, tristemente este pensamento não é tão inovador assim, é mais do mesmo. Isso mesmo, e é isso que me assusta.

Como aquele partido da estrelinha fez isso? Uniu o pior e o melhor dos brasileiros. Juntou uma massa capaz de angariar o poder tendo em vista a prosperidade da classe historicamente explorada ao mesmo tempo em que para isso precisa não aprofundar esta discussão e quiçá estas ações! O famoso se correr o bicho pega e se ficar o bicho come! Se cair nas graças das camadas baixas da sociedade cai na desgraça das castas que detém o poder econômico e ai sim desgraçarão a vida das classes baixas para além de qualquer eleição.

Porque ser humano é isso. Quer fazer o bem, mas não sabe bem a quem e como, enquanto aquele que quer fazer o mal sabe bem por onde. Mas isto não é tão evidente assim, depende de esforços para o entendimento, depende de um meio que alimente estes esforços.

A questão é: estamos no meio do enrosco como disse “a professora”. E agora justifico a menção ao ótimo cantor no inicio do texto. As camisetas vermelhas não são usadas somente pelo partido da estrelinha e nessa, queridos e queridas, todos estamos sendo manchados pela cor e pela dor do sangue que jorra de nossas veias. E aí, vamos mirar este jato em quem? Em nossos olhos e nos cegarmos? Esta parece ser a opção escolhida pela maioria.

Então meus caros, alguns somos mesmo alienígenas negros vindos de uma galáxia distante que partiram de dentro desta sociedade. Sociedade na qual vai tudo bem há vinte anos: a crise hídrica só atinge severamente alguns, impressionantemente não o Aedes aegypti que precisa de água parada para reproduzir a si mesmo e a dengue. E se poderíamos nos apoiar na educação para elucidarmos estas questões não devemos porque lá as coisas vão tão bem que nem existiu greve de professores. Ah e se acontecer qualquer coisa manda prender as crianças para se especializarem no crime rapidamente.

O importante é saber se quando desembaçarmos nossos olhos ele ainda terá razão com uma das coisas que disse em 2004: “Telas grandes nos seus lares pequenas em seus celulares através delas vejo tudo ir pelos ares”. Ou com outra que descreve sua saga e também nossa tarefa: “combater todas as pragas sem medo de quem que nem um cão morde a mão que afaga”.

* é professor da rede pública