Degradação moral, desigualdade e mentalidade colonial

Por Luiz Alberto Vieira

 

O Brasil vive um dos seus momentos mais graves de degradação moral, o que é extremamente preocupante para um país que teve a ignomínia da escravidão por 4 séculos. Infelizmente, a ausência de valores não é um problema apenas dos políticos. Pessoas que se julgam “de bem”, estão dispostas a defender qualquer injustiça: desigualdade social, exploração econômica da infância e até mesmo a fome.

Qualquer crítica às mazelas sociais do Brasil ou do mundo recebe logo o carimbo de “comunista” ou “petralha”. É patético que pseudo-defensores do capitalismo enxerguem o mundo conforme a geopolítica dos anos 50 do século passado, ignorando a viagem do presidente norte-americano Richard Nixon à União Soviética e a China em 1972 e a queda do Muro de Berlim em 1989, quando as disputas entre os blocos capitalistas e comunistas se extinguiram e quando o próprio bloco comunista foi a pique.

É grave que pessoas que dizem defender o capitalismo conheçam tão pouco sobre o capitalismo. O fato é que o capitalismo pode prescindir de suas formas mais selvagens e desiguais, como mostra a história ocidental do pós-guerra, período que ficou conhecido como “Anos Dourados”.

Na Alemanha Ocidental, o chanceler conservador Konrad Adenauer ajudou a construir a chamada “Economia Social de Mercado”, que rejeitava tanto as ideias comunistas como as do totalitarismo nazista, combinando os princípios da liberdade de mercado e da equidade social. O resultado foi um enorme sucesso com a Alemanha se recuperando rapidamente da guerra e construindo empresas internacionais do nível da Bosch, Siemens e Volkswagen, enquanto o desemprego era próximo de zero e a desigualdade de renda muito baixa.

Em países que saíram da guerra com a estrutura produtiva mais atrasada como Itália e França, onde  a participação do trabalho rural ainda representa ⅓ do total, adotaram políticas de modernização produtiva enquanto criavam seu Estado de Bem-Estar Social. Na França, o socialista Vincent Auriol liderou o processo, enquanto na Itália a política foi implantada por uma série de primeiros-ministros democratas-cristãos. Em ambos os casos, os resultados foram auspiciosos.

Até mesmo os Estados Unidos, viveu décadas de baixo desemprego e alto crescimento econômico, enquanto inovações tecnológicas como o forno de microondas e máquina de lavar revolucionaram a forma de viver.  O presidente Lyndon Johnson lançou a Great Society nos anos 60, com uma série de políticas públicas visando a redução das desigualdades raciais e eliminação da pobreza, inclusive com a criação de cotas para negros nas universidades americanas.

O problema principal é que desde o fim do regime de Bretton Woods, o que levou a desregulamentação financeira e descentralização da produção, o capitalismo tem entrado numa etapa crescente de concentração de renda e riqueza. Nos Estados Unidos, a participação dos 10% mais ricos que era de 32% em 1970, atingiu 49,7% em 2007, a maior da história.

Vivemos num mundo onde a importância da herança é cada vez mais importante em relação ao trabalho, jogando por terra qualquer concepção meritocrática do capitalismo.

 

 

Desta forma, quando discutimos a desigualdade de renda e as condições de vida dos mais necessitados, o problema não é meramente o capitalismo ou não, pois há diversas formas de capitalismo e as políticas públicas e sociais já demonstraram sua eficiência. O problema principal que o discurso da Guerra Fria fora de seu tempo e lugar tenta escamotear é a concepção colonial e escravagista do mundo que teima a permanecer. Por isso, é tão difícil para tantas pessoas enxergar o brasileiro pobre com um ser humano, um igual em humanidade e nacionalidade e, portanto, portador de direitos.