Artigo: “As diferenças entre o Brasil e o Sri Lanka” Por João Teixeira

Era dos Extremos – O Breve Século XX – 1914-1991 -, do historiador egípcio Eric Hobsbawm, é uma obra colossal (597 páginas) obrigatória para quem reflete sobre os paradoxos contemporâneos.

“O século XX deixa um legado inegável de questões  e impasses” – explica na contra-capa o livro (2007, Companhia das Letras).

“… o desafio não é tanto falar das perplexidades de hoje, mas mergulhar nos acontecimentos, ações e decisões que, desde 1914, constituíram o mundo dos anos 90, um mundo onde passado e futuro parecem estar seccionados do presente”.

Hobsbawm – estudante em Viena, Berlim, Londres e Cambridge. Mestre da British Academy e da American Academy of Arts and Sciences – divide a história do século XX em três eras.

A “Era da Catastrofe” é marcada pelas duas guerras mundiais, pelas ondas de revolução global em que o sistema político e econômico da URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo e pela virulência da crise econômica de 1929.

A “Era de Ouro” são os anos dourados do após-guerra, as décadas de 1950/60, com sua paz congelada e extraordinária expansão econômica e profundas transformações sociais.

Entre 1970 e 1991 dá-se o “desmoronamento” final em que “caem por terra os sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo”.

Eric Hobsbawm, autor, entre outros livros de A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e Rebeldes Primitivos, descreve como poucos os anos de chumbo (1964/85) quando um dos lemas da juventude era “não confie em ninguém com mais de trinta”.

Aborda a inversão no papel das gerações.

Época em que tornou-se menos óbvio o que os filhos podiam aprender com os pais do que os pais já sabiam.

O domínio cultural do blue-jeans e do rock anglo-saxao.

O poder financeiro do jovem de 14 anos com mais poder, status, pleno emprego e prosperidade desde a Era de Ouro.

A vida informal e antinomia na conduta pessoal em que cada um “está na sua” e a “politica de identidade” étnica-nacional-religiosa.

O triunfo do indivíduo sobre a sociedade.

A obra colossal aborda a vertigem civilizatória na Ásia, África, Oriente Médio e América Latina, com seus movimentos de liberação nacional na etapa da descolonização.

E fornece importantes dados sobre o Brasil: em 1980, 20% das pessoas no topo da população detinha 60% da renda nacional; 40% recebiam 10% ou até menos.

Status e renda profundamente desiguais na terra tupiniquim.

O Brasil, por algum tempo, foi o oitavo país industrial do mundo não-comunista.

O “monumento á negligência social”, campeão mundial na concentração da renda, em 1939 tinha um PNB quase duas vezes maior que o do Sri Lanka.

No fim da década de 80, a diferença entre os PNB era dez vezes maior a nosso favor.

O Sri Lanka subsidiava a alimentação básica da população e oferecia educação e assistência médica gratuita até a década de 70.

O recém-nascido médio lá podia esperar viver vários anos mais que o brasileiro médio.

Em 1989, o percentual de analfabetismo era duas vezes maior no Brasil que na ilha asiática.

Em resumo, o Brasil nunca teve politica social e sua dívida humana é impagável.

Leitura obrigatória.

 

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