Anos de chumbo – Heróis e vilões da época imaginária

João Teixeira*
“Liberdade é liberdade, qualquer adjetivo que se acrescente a esta palavra é limitação, é negação da liberdade”. (Luiz Carlos Prestes, O Constituinte, O Senador, 1946-48).
Deuses e demônios moldaram personagens inesquecíveis da resistência armada ao regime militar brasileiro.
Prestes, Grabois, Cámara Ferreira, Apolônio, Marighella, Lamarca, ícones da luta armada e líderes das principais organizações clandestinas, há cem anos, a partir de 1932 – ano de fundação do Partido Comunista Brasileiro, PCB – enfrentaram a opressão e tortaram-se valiosos alvos dos órgãos de segurança internos e da CIA americana.
Isso significa que os ilustres comunistas brasileiros enfrentaram a mão pesada do Estado, em governos civis e militares, e a teia de órgãos atulhados dos piores tipos: traidores, os esquerdistas ‘virados’ na tortura, que passavam a colaborar com as autoridades; policiais e civis infiltrados em organizações clandestinas, como o PCB, PCBR etc.
Agentes infiltrados, remunerados como servidores públicos, além de cruéis pistoleiros, os matadores de aluguel, como sucedeu em determinada etapa da Guerrilha do Araguaia (1972/75).
Na selva amazônica, o Exército terceirizou a guerra contratando peões e mateiros como matadores de “insetos” humanos – cortadores de cabeças- no combate aos guerrilheiros do PC do B.
O Cabo Anselmo – nascido José Anselmo dos Santos e morto como Alexandre da Silva Montenegro, o nome frio que ganhou do delegado Fleury – foi o mais famoso agente duplo da história recente.
O companheiro traidor sempre foi um tipo altamente respeitado.
Inteligente, falante, bem apessoado, o marinheiro sergipano que presidia a inflamada Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, que proferiu um contundente discurso com o dedo de Marighella, no Sindicato dos Metalúrgicos que levou á rebelião da marinhagem, ás vésperas do golpe civil-militar de 1964, era ligado á área cultural do PCB.
Anselmo- na verdade marinheiro de primeira classe -, persuasivo, carismático, empolgava multidões e companheiros da esquerda carioca e paulista, no centro nevrálgico da política no País.
Anselmo conversava muito com Chico de Assis e Vianinha, expoentes da dramaturgia marxista dos anos 60, o sujeito era mesmo acima da média.
Na época em que se buscava o impossível, o que a imaginação mandava, época de ideologia e divindades, os milagres aconteciam.
Dona Carmen, mãe da advogada Therezinha Zerbini, fundadora do Comitê Feminino pela Anistia, presenteou o perseguido Cabo Anselmo – expulso da Marinha e militante clandestino da VPR – com um crucifixo, quando Anselmo foi seu hóspede escondido em sua casa, no Cambuci, em 1967.
Anselmo e quase todo Brasil vibrava com a “Disparada”, de Geraldo Vandré, no Festival de Música da TV Record.
Já era, então, agente infiltrado do Cenimar nas esquerdas?
Pois já era, sim, agente duplo – revelou o delegado Cecil Borer, do Dops/RJ, ao jornalista Mário Magalhães.
O Cabo Anselmo que a história comeu, mergulhando-o no horror de não ter recuperado seu verdadeiro nome, seu maior medo na vida, perdeu a identidade e a razão de existir.
Como ele próprio se definiu “combateu o Estado, serviu á polícia do Estado, é ficou ao Deus-dará”.
A História julga os bons e acusa os mais.
Os homens não perdoam a traição.
Severino Mello, o Mellinho do PCB, era agente infiltrado da polícia entre os comunistas. Muitas prisões ocorreram graças á sua colaboração.
A bombástica entrevista que o pernambucano Adauto Freire, o agente Carlos da CIA, concedeu ao Jornal do Brasil em 1972, assumindo-se como tal, foi a mais espetacular das revelações sobre agentes duplos.
Adauto Freire era a sombra de Prestes, cuidando das relações internacionais do PCB, como funcionário da ONU.
Palavras-chave: golpe de 1964; espiões da ditadura.
*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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