ANOS DE CHUMBO O canto de fogo de Frei Fernando

João Teixeira (Colunista)*

“Aos que insistem em cantar na fogueira o cântico de esperança libertadora do povo”.
Este som de esperança do livro O Canto na Fogueira – cartas de três dominicanos quando em cárcere político, frei Fernando, frei Ivo e frei Betto, Editora Vozes, 1977 – dá o tom neste breve perfil de Fernando de Brito, frei dominicano que sacrificou a alma no episódio do assassinato de Marighella.
Frei Fernando, ao contrário de Madre Maurina – madre superiora do Lar Sant’ana de Ribeirão Preto, presa, torturada, estuprada e possivelmente grávida na cela – teve papel decisivo no violento episódio ocorrido na noite do dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, o fim do comandante da Ação Libertadora Nacional (ALN).
Frei Fernando de Brito faleceu há alguns anos no interior da Bahia, aos 83 anos.
Nascido em 11 de outubro de 1936, em Visconde do Ouro Branco (MG), o religioso revolucionário era filho da aristocracia rural, o fazendeiro João Ferreira de Brito e de Antonieta Ferreira de Brito.
O pai de Frei Fernando defendia a reforma agrária – antes que os comunistas a fizessem.
A militância esquerdista de Frei Fernando começará no final dos anos 50 do século XX, aos 22 anos, sob a influência do meio universitário seguidora das idéias de Herbert José de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henfil, líder da Ação Popular (AP) e criador da Campanha Contra a Fome no Brasil.
Na conjuntura da Guerra Fria, de embate entre o capitalismo versus comunismo, por volta de 1960, surgiram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), não se sabendo bem se a primeira CEB surgiu em Nísia da Floresta (RN), ou em Volta Redonda (RJ), em paróquias vinculadas ás dioceses.
As CEBs foram o resultado prático do Concílio Vaticano II, iniciado pelo Papa João XXIII, em 1962, e encerrado por seu sucessor, Paulo VI.
O concílio repensou o papel da Igreja Católica adaptando-a ao mundo pós-guerra.
Joao XXIII empreendeu a abertura da Igreja de Roma abolindo práticas e crenças fixadas no século XVI.
Na prática, abriu a Igreja aos fiéis; diálogou com religiões não-cristas e defendeu a liberdade rsligiosa; simplificou ritos e passou a celebrar culto em língua nacional, nativa, rejeitando a incompreensível língua morta do latim.
Além, claro, de estimular maior presença de leigos na vida religiosa.
A defesa do projeto evangelizador resultou em programas de alfabetização de adultos, o Movimento de Educação de Base, com a metodologia de ver-julgar-agir.
Passou a desenvolver, portanto, um espírito crítico nos cidadãos, abrindo espaço para o debate político.
A esquerda católica chocou-se frontalmente no Brasil sob efeito das CEBs, opondo setores católicos conservadores, eclesiásticos ou não, que combatiam o nacional-desenvolvimentismo reformista do presidente João Goulart (Jango) em 1964.
Os jovens católicos progressistas, da Juventude Universitária Católica (JUC), e da Juventude Estudantil Católica, origem da AP, socialista, de linha chinesa, foram duramente reprimidos a partir de 1964.
A AP, criada em 1962, em Belo Horizonte, sob a égide de teólogos progressistas, como Pierre Thsilhard de Chardin, Jaques Maritain e Emmanoel Mourier, foi duramente reprimida pelos militares a partir de 1964.
Neste contexto libertário, em que os católicos preparavam-se para o universalismo da globalização, outro memorável frei dominicano, Tito de Alencar Lima, outro mártir de história lancinante da Inquisição cabocla, enlouquecido na tortura que o levou a posterior suicídio em Paris, recrutava jovens católicos para a vida clandestina na AP.
Era “um tempo de guerra, um tempo sem sol”, como cantava De Kalafe.
O padre espanhol Camilo Torres fundava as FARC, na Colômbia.
O padre peruano Gustavo Gutierrez lançava a Teologia da Libertação.
Na Europa, para combater os PC, o Vaticano estimulava a conversão á vida civil dos “padres-operários”, que abandonavam as batinas e casavam, como tantos que conheci no cinturão industrial da Grande São Paulo.
A ALN de Marighella importou o fenômeno e passou a utilizar a rede geográfica de casas paroquiais, conventos, a infraestrutura de comunicação e transportes, da Igreja Católica progressista no Brasil.
Marighella herdara o espólio e a experiência de clandestinidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de Prestes, o Padtido-Máe das esquerdas, que tentou combater de toda forma o radicalismo das bases – principalmente as universitárias paulistas- adeptas da resistência armada ao regime militar.
A ala de apoio de freis dominicanos á guerrilha era formada por: Fernando de Brito; Carlos Alberto Libanio Christo (frei Betto); Yves Lesbaulin (frei Ivo); Magno José Vilella (frei Magno); e Luís Felipe Ratton (frei Ratton).
Em abril de 1968, Marighella quis usar o convento de Conceição do Araguaia (PA) como base nos preparativos da guerrilha rural.
Frei Fernando de Brito, teólogo e filósofo, pagou seus pecados terrenos por sua ligação com Marighella.
Preso no centro do Rio, no dia 2 de novembro de 1969, juntamente com frei Ivo, sofreram forte tortura – pendurados no “pau-de-arara”, choques elétricos em todo corpo, inclusive no canal da uretra- nas dependências do Arsenal da Marinha, pelos policiais membros do Esquadrão da Morte, do delegado Sérgio Fleury, além do cerebral Pollac, o “Alemão”, do Cenimar.
As autoridades obtiveram, pela violência, a senha e o local do próximo encontro dos dominicanos com Marighella, o ” inimigo número um da ditadura militar brasileira.
Trazidos rapidamente para São Paulo, os religiosos foram usados como “isca” na emboscada fatal.
A violência marcou indelevelmente a alma do religioso que partiu fiel a suas ideias de juventude.
Palavras-chave: anos de chumbo; o canto de fogo de Frei Fernando.
*João Teixeira, jornalista e escritor, integra o Conselho Editorial do Jornal Contratempo.