ERA DE CHUMBO – O canto de fogo de Frei Tito – Parte II

João Teixeira (Colunista)*

A maldição do escritor assombro os leitores de variados matizes ideológicos no polêmico episódio de atuação dos padres dominicanos na resistência armada ao regime militar no Brasil (1964/85).
A publicação do livro Autópsia do Medo – Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury -, de autoria do meu amigo Percival de Souza, conhecedor como poucos da guerra revolucionária, suja, clandestina, devoradora de homens e de almas, derrubou dogmas, paixões e determinismos da Era de Chumbo.
Percival, destacado repórter policial do extinto Jornal da Tarde (Grupo Estado), desde 1969, conviveu com autoridades, políticos e prisioneiros do Estado – alguns deles nossos companheiros de redação.
Deu “furos” de reportagem na temida polícia política que até hoje impressiona os leitores da época.
Com tal experiência, imprimiu á sua obra um cunho jornalístico, independente, questionador e anti-panfletário, ao traçar um perfil inédito do policial que “levou a cabo uma guerra terrível e vitoriosa contra os inimigos do status quo que representou e defendeu”, como esclareceu a contracapa do livro, uma tarefa que incomodou a histórica militância esquerdista.
O escritor não se limitou a condená-lo como criminoso torturador, senhor da vida e da morte, acima da lei e dos homens, o agente inescrupuloso no enfrentamento dos inimigos.
Não.
Percival não escreveu o que tantos desejavam ler para reafirmação de certa mística.
O escritor foi além, lançando luzes sobre o personagem que realizou o trabalho sujo para os militares no poder.
Protegido pelo Sistema, o delegado Fleury ganhou, inclusive, uma lei que levou seu nome para protege-lo da Justiça comum.
A Lei Fleury – Lei número 5.947, de 1973 – o absolveu como réu primário pelos crimes que cometeu como chefe do Esquadrão da Morte.
O poder judiciário investigou, oficialmente, 69 casos de execução de bandidos comuns pelo Esquadrão.
Foram as sindicâncias concluídas transformadas em processos.
Houve, lógico, muitos casos não esclarecidos.
Calcula -se que o número de vítimas tenha chegado a 200.
A corregedoria da Polícia Judiciária apurou que os justiceiros abandonavam os corpos (“presuntos”) nas imediações de vários municípios.
O procurador Hélio Bicudo notabilizou-se por denunciar os crimes do Esquadrão da Morte, acusando -o de dar proteção a traficantes de drogas.
Quem foi, afinal, o Deus da repressão da Era de Chumbo?
“… o terrível delegado Fleury aqui revelado não é o monstro desapiedado e óbvio que ele mesmo cultivou como alterego para intimidar a quem interessar pudesse”.
“É o que casou, teve filhos, amigos, nutriu uma paixão avassaladora – e correspondida – por uma mulher da banda inimiga, e que se notabilizou como profissional dedicado, cotidiana e metodicamente, aplicado a elaborar o terror em sua mais pura composição”.
Fleury passou a misturar de propósito crimes comuns com os políticos.
“Expropriação” de banco era assalto; carro de “chapa fria” era roubo.
A dialética marxista passava longe se suas preocupações.
Ao ser interrogado pelo juiz Mário Fernandes Braga, em meio ás várias condenações e prisões que sofreu, Fleury declarou:
_ … foi graças a uma vigilância demorada e minuciosa a um convento de padres dominicanos que consegui chegar até o líder terrorista Carlos Marighella. Por isso, passei a ser um elemento visado pelas forças de esquerda.
Frei Tito pagou seus pecados nas mãos do delegado Fleury e seus asseclas.
Percival de Souza esmiuçou seu calvário em Autópsia do Medo.
A esquerda impaciente, porém, estrilou contra a face humana do personagem que gostaria de ter eliminado física e documentalmente da História.
Como Stálin fazia com seus adversários na URSS.
Uma imprecisão informativa na obra monumental (Ed. Globo, 2000, 649 páginas) abriu outro flanco na trincheira da guerra literária.
No “arrastão” policial que antecedeu o fim de Marighella, na noite do dia 4 de novembro de 1969, um importante personagem caiu na rede do Dops: Genésio de Oliveira, o zelador do edifício Cerro Azul, na Rua São Carlos do Pinhal, era o “Rabot” da ALN.
Zelava pela segurança quando Marighella e Câmara Ferreira reuniam-se ali e guardava algumas armas – a “farinha de rosca” – levadas pelo capitão Lamarca ao desertar do IV RI de Quitaúna, em 25 de fevereiro de 1969, engrossando a guerrilha urbana da VPR.
Percival escreveu:
“Genésio falou e falou porque não suportou os choques, o pau-de-arara, S queimaduras, os socos e pontapés, as pauladas”.
Esta frase mobilizou os ex-presos políticos da época.
Genésio tornou-se símbolo de resistência entre os perseguidos – teve um dos dedos cortado a faca na tortura- e era uma espécie de “pombo-correio” entre eles nos porões.
Foi acusado de forma vaga pelo escriba no best-seller, o que motivou em 2001 um protesto singular.
Mais de 200 ex-hóspedes do Estado militar subscreveram um abaixo-assinado publicado no Painel do Leitor do jornal Folha de S. Paulo condenando-o por ter escrito um livro em que “exalta um crápula” tecendo acusação vaga, sem fonte precisa e de sentido incompleto.
_ falou, falou, mas falou o qué? – questionaram.
Houve réplica e tréplica sem entendimento entre as partes.
O fato é que, sob tortura, poucos heróis resistiram.
A maioria dos prisioneiros confessam fatos e entregavam nomes ou inventavam histórias verossímeis para escapar á dor da morte.
Além do que, devidamente “amaciados” e maquiados, serviam como “iscas” da polícia nas “pescarias” nos “pontos” da cidade para a prisão dos companheiros de luta.
Tal como ocorreu com a e -presidente Dilma Roussef (“Vania”) nos seus tempos de militância na VAR-Palmares.
A maldição do escriba desceu a esse cemitério de ilusões e contribuiu para elevar a pressão arterial que causou o derrame e a morte de Genésio de Oliveira.
Genésio, o Rabot da ALN de Marighella, era primo de Frei Tito e o acusava diante dos companheiros presos de ter fraquejado nos impiedosos interrogatórios a que fora submetido.
O estranhamento entre os primos cearenses – Genésio, nascido em Caririaçu; Tito, de Fortaleza – começara quando Genésio, preso, viu Tito chegar preso e fortemente escoltado numa viatura policial.
Acabrunhado, Tito lhe disse:
_ Não adianta negar, eles sabem de tudo.
Frei Tito suplicou ao primo que não o acusasse daquela forma em público.
Era duplamente torturado, pelo inimigo e os próprios companheiros.
A situação,sem dúvida, agravou sua depressão e o desequilíbrio mental que levaram-no ao suicídio no exílio na França, mais tarde.
Autópsia do Medo causou incêndios, á esquerda e á direita.
A bombástica revelação de uma improvável paixão adolescente nutrida pelo delegado Fleury – casado com Isabel Óppido e pai de três filhos – pela advogada anarquista Leonora Rodrigues infernizou a vida familiar de sua amante.
Leonora é irmã de um jornalista e intelectual de esquerda, Raimundo Rodrigues Pereira, ex-editor do jornal Movimento, de oposição ao regime militar.
Foi um escândalo inimaginável nas hostes da esquerda.
O “affaire” entre Fleury e Leonor, verdadeira “síndrome de Estocolmo” (amor entre torturador e torturada), prova a complexidade da mente humana.
Paixão não tem ideologia.
Não foi o único caso do gênero registrado na Era de Chumbo.
Palavras-chave: era de chumbo; o canto de fogo de Frei Tito.
*João Teixeira, jornalista e escritor, integra o Conselho Editorial do Jornal Contratempo.