ERA DE CHUMBO Palmério Dória, símbolo de resistência do jornalismo

– João Teixeira (Colunista)

O jornalista e escritor Palmério Dória (Santarém, 1948 – 31/3/2023), partiu em um dia significativo: o da eclosão do golpe civil-militar (1964/85) que deixou de ser comemorado.
A data histórica sobre a qual poucos, como ele, souberam exercer seu espírito crítico com inteligência e criatividade.
Conhecemo-nos e convivemos nas redações em temos de idealismo, emoções e aguerrida militância profissional, política e sindical.
O combativo companheiro paraense de fala pouca e muita ação, impressionava pelo talento e dedicação obstinada ao jornalismo.
Como era comum á época, Palmério escreveu na “grande Imprensa burguesa”, como a chamávamos então com uma ponta de ironia, como se existisse outra defensora do proletariado.
Escreveu em O Estado de São Paulo (Estadão); na Folha de S. Paulo; e na TV Globo, onde atuou com competência, texto brilhante e elucidativo, esclarecedor, em reportagens que marcaram época.
Nos anos 70, as tiragens dos grandes jornais e revistas atingiam marcas de milhares de exemplares no mercado leitor em expansão por causa do dinamismo social e econômico, gerando promoções e edições extras sempre que as necessidades e urgências dos fatos exigiam no mundo em ebulição.
A esquerda dominava as redações e a direita a administração das editoras e empresas jornalísticas, o quarto poder, a maioria sob a orientação do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Lutávamos por uma sociedade livre e democrática, em busca de liberdade política e de expressão, sob o tacão implacável da censura federal do regime dos generais.
As redes sociais e o universo digital, há 50 anos, na etapa metalnográfica, de telex, rádio e telefonia fixa, apenas inspiravam a ficção científica.
O Estadão era o único jornal a ter um censor na redação, geralmente um policial burocrata, ignorante, iletrado, incapaz de qualquer análise e orientado unicamente a traçar um xis sobre temas proibidos nas páginas.
Os demais jornais praticavam a autocensura – o que era pior.
Palmério Dória, baluarte da geração de chumbo do jornalismo, formado por milhares de nomes, migrou mais tarde para a Imprensa alternativa, a chamada nanica, que abordava temas que os jornalões evitavam para não atritar-se com o poder.
Escreveu em Versus, criado pela turma do também inesquecível Marcos Faerman, o Marcáo, do Jornal da Tarde, dirigente do Partido Operário Comunista (POC), na clandestinidade.
Além de Versus, Palmério esteve no Ex- e em O Bondinho, este nascido como “house organ” da rede Pão de Açúcar, entre outros.
A produção literária de Palmério Dória manteve o vigor, o ineditismo e o espírito crítico em obras políticas e comportamentais:
*Honoráveis Bandidos – um retrato do Brasil na Era Sarney (2009).
*O Príncipe da Privataria – a História secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso ganhou sua reeleição.
*Mataram o Presidente – memórias do pistoleiro que mudou a história do Brasil (1976) – sobre Getúlio Vargas.
*Evasão de Privacidade – a candidata que virou picolé (2002) – sobre a fracassada candidatura de Roseana Sarney.
*A Guerrilha do Araguaia (1978).
Palmério Dória inscreveu seu nome no panteão dos grandes jornalistas brasileiros, tornando-se exemplo de conduta para as novas gerações de escribas.