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Nada de novo na fronte

Nada de novo na fronte

Por Daiane Almeida

Você pensa que eu não sei que o homem mata?
Destrói, corrompe, desmata, ameaça, estupra, violenta e mente?
Que o nosso país está sendo vendido e comprado aos pedaços como boi clandestino.
Que o nosso alimento tem veneno e nos nossos olhos tem dor e medo?
Você pensa que porque não vejo os noticiários, não sei da homofobia
Do racismo, do classicismo, do bolsonarismo e de todo apartheid diário.
Eu sei sim, estou viva e olho por aí.
Vejo que não tem pretos na pizzaria bacana que fui ontem à noite.
E quando tinha, veio vender balas, mas ninguém comprou.
É uma crítica? Pode ser uma autocrítica. Eu também estava lá.
Só tô de saco cheio de críticas e do pessimismo congênito.
É o fim dos tempos, agora o Brasil já era!
O país está uma bosta! Está tudo ruim, e ainda vai piorar!
Para você que consegue se alimentar disso tudo, ainda respira e vai trabalhar,
Parabéns porque você tem vísceras de ferro para engolir tanto coisa ruim e ainda respirar.
Minhas vísceras se enojam do pessimismo niilista, elas não se alimentam, se atrofiam e têm indigestão.
Não estou negando a realidade dos fatos e noticiários.
Só que vejo a terra milenar, e sei que nossas vidas passarão e a terra ainda vai ficar,
Devastada, com homens ou sem eles, quem saberá?
Dirão que só os ricos vão restar, porque o jogo é de quem pode pagar e quem não pode, perecerá.
Não duvido, desde que sou gentinha nesse mundão enorme é assim.
Ah a tragicidade!
Nascemos, morremos, temos a pobreza encomendada e em manutenção, temos em nós a discriminação. Dizem que somos os carrapatos da mãe terra, Raul Seixas disse.
Pego minha mediocridade e minha alienação, e vou olhar o ipê florido magenta que fez os degraus da calçada da praça ficarem todos cor de rosa.
Um manto de flores contrastando com o cinza do concreto velho, passo por elas e desvio das formigas que estão trabalhando.
Distraio-me com as maitacas verdinhas e barulhentas no céu, é fim da tarde, e o sol está alaranjado contra o ipê e me deixa ver só as sombras rápidas dos beija-flores que chupam o néctar doce das flores que ainda restaram na árvore.
Meu cachorro volta com um osso e se deita no gramado, ele está satisfeito, não tem pensamento, memória, nem julgamento, só vive e tento imitá-lo, sento me no gramado, olho a imensidão azul do céu limpinho e penso, a vida não pode ser só essa merda toda que dizem por ai freneticamente.

*Daiane Almeida é professora de Filosofia e Poeta

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