“Pra lá de Alegria, Alegria” na Crônica de João Teixeira

COISAS DO BRASIL: Pra lá de Alegria, Alegria – Por João Teixeira

Capa do LP de Caetano Veloso de1968

Final de 1967.

A cena – diante do Teatro Ruth Escobar, na Rua dos Ingleses, no Bexiga, reduto underground da época – dispensou os olhares da plateia.

Caetano Veloso circulava por São Paulo como celebridade, a bordo de um Mercedes Benz importado dirigido por chofer vestido a caráter, de luvas brancas, após o estrondoso sucesso da música Alegria, Alegria, vencedora do Festival da TV Record.

O compositor baiano recém -chegado de Santo Amaro da Purificação, tímido e algo desajeitado, alcançava o estrelato cantando os versos inspirados no existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre (“… sem lenço nem documento…”; “…nada no bolso ou nas mãos…) extraído do clássico Les Mots (As Palavras).

“… o sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia…”

A poesia vanguardista acompanhada pela sonoridade das guitarras do conjunto argentino Beat Boys marcou a carreira do ícone da alvorada tropical.

O sol nascia para todos, mas a sombra era para poucos.

Caetano arrebatara os corações em companhia de coadjuvantes de luxo do som pop que revolucionaram a música popular brasileira e exibia a fama pela Praça da República, os boulevards da elegante Avenida São Luís e a burguesia dos Jardins.

Diante do Teatro, porém, a realidade foi cruel para Tony Osanah, um músico cabeludo e agitado, destes baixinhos que usavam botas com salto de carrapeta para parecer mais alto, que uma noite chegou arrasando e quis ver o show sem passar pela bilheteria.

_ Aqui, não!

O gringo topou com o porteiro pela frente, um crioulo enorme, tipo armário, que o barrou com firmeza.

_Soy Tony Osanah, bitcho, de Beat Boys!

_ Aqui, não!

Não teve rei nem roque.

O cabeludo sumiu com o ego ferido e puto da vida por não ter sido reconhecido como astro.

 

João Edivaldo Teixeira, Jornalista e escritor há mais de 50 anos, formou-se em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero em 1975, iniciou sua carreira como repórter esportivo e de Geral no Jornal da Tarde (Grupo Estado) Passou pelas redações dos principais jornais do País, Diário de São Paulo e Diário da Noite, O Globo, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Editor da coletânea de contos Vício da Palavra (1977) e Mensageiros da Miscigenação, de Francisco Amaro Gurgel Filho (2013), Teixeira é colaborador e membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

 

 

APOIE

Seu apoio é importante para o Jornal Contratempo.

Formas de apoio:
Via Apoia-se: https://apoia.se/jornalcontratempo_apoio
Via Pix: pix@contratempo.info