Podemos falar de Educação?

por Carlos Eduardo Gonçalves*

Peço-lhes a licença de abordar um assunto polêmico de nossa sociedade. Podemos falar de Educação?

Não é nenhuma novidade que a educação não está lá aquelas coisas […] Ou aquela “Brastemp”, segundo o velho jargão publicitário incorporado ao discurso do senso comum popular. Essa tal de “Brastemp”, conjuntura atual da educação no Estado de São Paulo, dito o mais rico do País, e com o PIB duplamente maior do que países como a Argentina, por exemplo, há tempos que está em estado vegetativo em nossa sociedade. Por muitos, este estado ocioso beira o que denominamos como improdutividade. Ou seja, uma onerosa sucata improdutiva. Mas, improdutiva de quem? E por quem?

Nesta semana, caro leitor, ouvi os lamentos de uma professora que participou de um “curso de formação”, ministrado por um engenheiro, que não sei por que cargas d’água, largou os projetos e construções de pontes, edifícios e casas e resolveu atuar na [sic] consultoria em educação.

Esses lamentos, verbalizados secundariamente pela professora, foram inicialmente colocados pelo engenheiro, não o “que virou suco”, como o da Avenida Paulista dos anos 90, mas do engenheiro que virou Educador, o do século XXI. Moderno, não?!

Esse discurso, profanado pelo Engenheducador, ops, tá difícil, perdoem-me, já estou me confundindo […], e assumidos pela professora, consistem justamente, em colocar todos os problemas da educação nas costas amplamente “largas” do professor paulista, justificando que o problema tem raiz na improdutividade. Desta forma, trago à tona, novamente, a provocação inicial deste texto: Improdutiva de quem? E por quem? É óbvio, segundo a professora, após essa “formação”, que essa improdutividade parte do professor. Ele é o culpado. Ele é o epicentro do problema.

Mas vejam só! Como esse engenheiro é um sujeito abusado! Falou que o problema da educação é o professor improdutivo, em um local onde havia mais de 150 professores. Atitude nada populista a do conferencista. Mas por favor, não podemos medir as palavras de somente uma professora sobre a conferencia, isso seria uma generalização muito grande, um equívoco indedutível. Suponhamos então, leitores, que essa afirmação causou uma revolta imensurável na plateia “sedenta”.

Ledo engano, os professores compraram a ideia de que os culpados são eles próprios. Um sadomasoquismo ideológico, ao passo que “batem” em seus alunos, são sádicos, em promover o sofrimento na busca de um sentimento prazeroso da suposta anulação de um masoquismo, também ideológico de ter prazer em “apanhar”, de tomar uma surra, ficar calado, e pedir bis, ou quero mais. Segundo o próprio Sade, “As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins”. Essa é a paixão do Governo sádico de Geraldo Alckmin (PSDB). Sua paixão consiste em bater, em ser sádico, para que seus fins de sucateamento da educação se estabeleçam.

Tanto é que hoje, esse professor que vos escreve, acabou de abrir seu internet banking, e constatou um depósito de R$417,00, no que se refere a uma decisão judicial do ministro Ricardo Lewandowiski, isso mesmo, aquele juiz do STF. Essa decisão judicial, diz respeito ao pagamento dos dias, ou melhor, dos meses em greve, pasmem, foram 3 meses parados! Uma escola improdutiva por 3 duros meses de greve, e aos olhos da massa, improdutiva pela ociosidade dos professores que ao invés de dar aulas, paralisam avenidas e rodovias, atrapalhando a vida de todos. Obviamente, que esses R$417,00, não são relativos aos 3 meses, mas só a um mês.

A decisão do Supremo é clara, “com urgência, deverá ser pago todos os dias paralisados aos professores grevistas”.

Mas acontece que esse tal Geraldo, lá de Pindamonhangaba, radicado temporariamente no Palácio dos Bandeirantes, e bota temporariamente nisso!, insiste no não cumprimento da legislação tampouco de decisões judiciais, em prol de seu projeto de poder sádico, de surrar os professores.

Caros amigos, seríamos (nós professores) os culpados pela improdutividade da educação? Ou não nos é conveniente trazer à baila, e estudar o velho (e não ultrapassado) Marx, para dizer que o problema é estrutural e não supraestrutural?

Concluo que, a prova máxima do sucateamento da educação, é termos (não me incluo) engenheiros falidos como gurus da consultoria educativa, ao invés de professores, de carreira, como nossos referenciais. Se esse sujeito, por incapacidade, abandonou o projetismo da engenharia civil, creio que, por incapacidade, imagine só, como ficamos na educação, com esse discurso altamente despolitizado e sem potencial nenhum de aprofundamento.

Nada contra engenheiros darem aulas, nada contra matemáticos construírem pontes.

* é professor da rede pública