Manifestantes fazem passeata em Santa Cruz e pedem justiça por morte de jovem em Ourinhos

Aproximadamente 50 pessoas protestaram no sábado (6), em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), por justiça no caso do jovem que morreu com um tiro no pescoço durante uma abordagem da Polícia Militar em Ourinhos no começo de junho. Bryan Bueno, de 22 anos, morreu depois de levar um tiro na saída da FAPI no dia 9 de junho. O disparo foi feito pelo policial militar Luís Paulo Izidoro, que está respondendo ao processo em liberdade e afastado das funções militares.

“A gente quer ele preso. Ele não merece estar na sociedade. Ele matou meu filho e pode matar o filho de qualquer um. A única coisa que eu devo para o meu filho é a justiça”, pede a mãe do jovem morto, Valdinéia Pontes.

Parentes e amigos caminharam do Parque das Nações, bairro onde Bryan Bueno morava, até as principais ruas da cidade. A passeata virou também uma carreata, motociclistas e motoristas passaram a acompanhar o protesto.

Wesley estava no banco traseiro do carro quando Bryan morreu e foi ameaçado e agredido por policiais em Santa Cruz do Rio Pardo no dia 31

Testemunha ameaçada
A passeata em protesto contra a morte de Bryan aconteceu uma semana após uma testemunha do assassinato registrar um boletim de ocorrência contra policiais militares por supostas agressão e intimidação. O caso teria acontecido no último domingo (31) em Santa Cruz do Rio Pardo.

Wesley Valheiro Morais, de 18 anos, estava no banco traseiro do carro quando Bryan morreu. Ele presenciou a abordagem dos policiais na saída da festa e o momento em que o soldado Luiz Paulo Izidoro atirou contra Bryan, que estava no banco do passageiro da frente.

Segundo o delegado Renato Caldeira Mardegan, que investiga o caso, a vítima disse chegou a ser agredida. “Ela [a vítima] alega que estava em um evento na cidade e foi abordada, e nesta abordagem teria sido reconhecida como testemunha do caso ocorrido no mês passado em Ourinhos. E ela teria sido hostilizada pelos policiais. No final da abordagem, após sofrer ameaças e ofensas, ela teria sido agredida com um soco”, diz o delegado.

Wesley já depôs na ouvidoria da Polícia Militar incriminando o policial que fez o disparo e, segundo o delegado, o jovem acredita que a atitude dos policiais de Santa Cruz do Rio Pardo, cidade vizinha a Ourinhos, foi pra intimidá-lo no processo.

A Polícia Civil investiga o caso como injúria, ameaça, coação e abuso de autoridade. O rapaz e duas testemunhas foram ouvidas. Segundo o delegado, os policiais que trabalharam no dia também serão ouvidos para os suspeitos serem identificados. Também foi solicitado a ficha clínica de Wesley no dia que teria passado por atendimento médico para anexar à investigação.
O Condepe, Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana, que tem acompanhado e prestado apoio juridico à familia de Bryan, informou que estuda solicitar que o Wesley seja incluído na lista do programa de proteção a testemunhas do estado. Em nota, a PM informou que instaurou um Inquérito Policial Militar para a devida apuração e esclarecimento do ocorrido.

Inquérito apontou homicídio doloso 

O inquérito da Polícia Civil foi concluído no dia 7 de julho. Luís Paulo foi indiciado por homicídio doloso, por ter assumido o risco de matar ao abordar o jovem com arma em punho e apontada para a vítima, e duplamente qualificado, pois, de acordo com inquérito, ele não deu condições de defesa à vítima e por motivo fútil, informou a polícia.

A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público e da Polícia Civil contra o policial militar, mas na decisão, a Justiça rejeitou o pedido de prisão preventiva feito pelo MP e com isso o policial vai responder em liberdade.

O policial alega que o tiro foi acidental, versão também sustentada pelo comando da corporação. O policial que atirou e matou o jovem prestou depoimento à Polícia Civil e não quis dar entrevista na época da ocorrência, mas segundo o advogado dele, Osny Bueno de Camargo, o disparo foi acidental e provocado por um defeito na arma. “A versão única e exclusiva e que é a verdade. A arma disparou acidentalmente. Essa arma tem apresentado no Brasil inúmeros defeitos”, explica Osny.

O advogado afirmou também que a abordagem foi feita obedecendo às normas de conduta da Polícia Militar. “Operação padrão de quem não respeita a ordem que foi dada, que era para descer do carro. Eles desobedeceram e é assim que o policial tem que abordar, armado. É para isso que existe a polícia.”

De acordo com o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condeph) que teve acesso ao interrogatório, o policial disse ao delegado que a arma estava em posição sul, ou seja, apontada para baixo e o dedo não estava no gatilho, no entanto, a arma disparou. Ainda segundo o órgão, o policial disse também que os jovens desobedeceram a ordem de sair do carro.

Laudo diz que arma não apresentou defeito

O laudo feito pela Polícia Militar apontou que a pistola não apresentou defeito. O laudo foi entregue à Polícia Civil. O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condeph) teve acesso aos documentos e encaminhou à TV TEM. O laudo foi requisitado pela Polícia Civil no início da investigação.  De acordo com os documentos, o sistema de segurança e a trava do percussor não apresentavam irregularidades. Quanto à funcionalidade, não foi verificado defeito que possibilitasse o disparo do gatilho sem pressioná-lo. O documento é assinado por peritos da Polícia Militar.

Em nota, a PM informou que mantém a posição de homicídio culposo, sem intenção de matar, pois em nenhum momento houve a intenção policial em cometer aquele ato. Ainda segundo a nota, também não foi o caso de assumir o risco, pois deveria haver dolo em sua ação, mas não houve, foi uma fatalidade. A PM considera  como uma posição totalmente equivocada esse indiciamento da Polícia Civil.

Para Polícia Civil, além de assumir o risco de matar pela forma como foi feita a abordagem, o policial também colocou em risco a vida das outras pessoas que estavam no veículo e não dando a chance de defesa de Bryan.

Investigação
Segundo a Polícia Civil, ações da PM, como a tentativa de apagar o vídeo da abordagem, a lavagem do carro das vítimas e demora na entrega da arma, dificultaram as investigações. O comando da PM rebateu essas alegações.

“O veículo estava bastante ensanguentado, então eu determinei que ele fosse lavado para que os jovens pudessem ir embora com o mínimo de conforto. Mas quero deixar claro que só fiz isso após o veículo ser devidamente liberado pela perícia. Já o armamento assim que recebemos enviamos para a perícia local. O que eu acredito que está causando essa dúvida se nós apagamos ou não apagamos [as imagens] seja a incapacidade técnica de outras pessoas de extraírem esse material do equipamento, mas não apagamos nada, as imagens estão lá”, esclareceu a tenente coronel da PM, Cenise Araújo Calanans.

Entenda o caso
Bryan morreu baleado durante uma abordagem da Polícia Militar, na madrugada de 9 de junho. Segundo informações da Polícia Militar, o carro andava em zigue-zague e um dos meninos teria derrubado alguns cones de sinalização.

Dois policiais pediram para que o carro parasse. Bryan estava no banco da frente, do lado do motorista, e levou o tiro de um dos policiais. “O policial não declara que fez o acionamento desse gatilho. Ele declara um recuo diante desse esboço de reação da vítima. E nesse recuo que ele fez, com esse passo para trás, que ele teria dado esse disparo”, explica a comandante do Batalhão da Policia Militar de Ourinhos, Cenize Araújo Calasane.

O jovem, que morava em Santa Cruz do Rio Pardo, foi atingido no pescoço. Ele foi socorrido pelo Samu, mas chegou já sem vida na Santa Casa.

 

Marcas do tiros no banco do carro onde Brian foi atingido por PM