CIDADES: Lugar de encontro ou de passagem? Por Nilto Tatto

Ourinhos -SP

Artigo: Por Nilto TattoCom o passar dos anos, nossas cidades estão se transformando cada vez mais em lugares de passagem, ao invés da permanência – ambientes de isolamento e distanciamento, ao invés do encontro. Ou não é a vida em sociedade e as possibilidades de troca, a razão de ser das próprias cidades? Não nos enganemos: ao imprimir uma lógica meramente utilitarista ou mercantilista ao lugar onde vivemos, estamos fazendo o mesmo com as nossas próprias vidas.

A expulsão das camadas mais pobres da população das regiões com maior oferta de trabalho e de serviços públicos distancia estas pessoas de seus direitos e gera inúmeros conflitos. Já os padrões de moradia adotados pelas classes médias, com enormes conglomerados de arranha-céus amontoados em condomínios fechados, ou o modelo de vida das elites econômicas, são tão segregados quanto segregadores. O mesmo acontece com os nossos padrões de deslocamento, privilegiando o transporte motorizado individual em detrimento do coletivo. Se somarmos a tudo isso a precarização do espaço e dos serviços públicos, entenderemos algumas das causas e consequências da lógica individualista no nosso dia a dia.

Este tipo de ambiente diversifica e intensifica as disputas inerentes à uma sociedade de classes. São disputas que se manifestam no trânsito, na fila do banco ou do mercado, na relação dos pais com os professores e escolas de seus filhos, nas relações de trabalho, em casa, no esporte e até no lazer. Estamos criando gerações de pessoas incapazes de viver em sociedade, de conviver com a diferença, habitando cidades com um, três, às vezes cinco ou até quinze milhões de habitantes. Para piorar, nota-se que quanto mais as pessoas se distanciam umas das outras, dos espaços e serviços públicos, mais o ambiente urbano se degrada, apartando ainda mais as pessoas delas e do meio, num ciclo vicioso infinito.

Nilto Tatto ambientalista, administrador e deputado federal desde 2015. É filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o início dos anos 1980.

Por outro lado, um modelo de sociedade que garante a universalidade da moradia e acesso ao transporte, que oferece espaços e serviços públicos de qualidade, tende a aproximar pessoas, tornando o próprio ambiente mais seguro, agradável e democrático. Para isso, é preciso engajamento social, mas só isso não basta se não houver política pública. Enquanto estivermos presos em pequenas disputas com nossos vizinhos, estaremos afastando a possiblidade de construir juntos cidades justas e sustentáveis.

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