UMA SOCIEDADE NAUFRAGADA: POR QUE “TITANIC” MERECE SER VISTO (OU REVISTO)?

Por Isabelle Muraro e Bruno Yashinishi

Ao completar 25 anos, o filme “Titanic” ganha uma versão comemorativa em 3D nos cinemas. Assim como em 1997, salas estão sendo lotadas de espectadores para contemplar um dos mais bem sucedidos filmes de todos os tempos.
Roteirizado e dirigido pelo megalomaníaco James Cameron, “Titanic” se tornou um marco da cinematografia, não somente por ultrapassar a cifra do bilhão em bilheteria ou ser indicado a 14 Oscars em 1998 (vencendo em 11 categorias), mas por imortalizar o fictício romance proibido entre Rose (Kate Winslet) e Jack (Leonardo DiCaprio) e midiatizar uma das maiores tragédias náuticas da história, o naufrágio do S.S Titanic em 1912, com quase 1500 mortes.
Tudo o que escrevermos aqui sobre as virtudes ou os vícios do filme de Cameron será redundante. Há quem o idolatre e o trate como um clássico no patamar de outras superproduções estadunidenses como “E o vento levou” (1939) ou “Casablanca” (1942), mas também há quem o considere superestimado e mais um grande clichê sensacionalista do chamado “cinema catástrofe”. Portanto, nosso objetivo nesse texto será outro: o de exercitar a hermenêutica para traçar um paralelo entre a trama de “Titanic” e a figura do iceberg como metáfora do social.
Até quem nunca assistiu ao filme deve saber que o motivo do naufrágio do Titanic foi a colisão com um iceberg. Algumas teorias muito interessantes utilizam o iceberg como metáfora, como por exemplo, a explicação do id, ego e superego de Sigmund Freud, ou então, a possível definição das chamadas “Deep Web” ou “Dark Web” por teóricos e técnicos da informática.
A ortodoxia marxista também pode valer-se do iceberg como metáfora da divisão da sociedade de classes. Evidentemente, “Titanic” não é um filme marxista e tampouco socialista, mas é carregado de representações da luta de classes.
Assim como o iceberg, Titanic era um navio com camadas aparentes e abscônditas. A superfície (primeira classe) era luxuosa, imponente, com passageiros ilustres e da alta sociedade. A parte imersa (segunda e terceira classes) era simples, caótica e com tripulantes bem menos favorecidos socialmente. Nas caldeiras, a classe trabalhadora lidava com altas temperaturas e insalubridade para alimentar de carvão a máquina que cruzava o Atlântio Norte.
O romance sintetiza ainda mais a distância social que transparece em todo o enredo: Rose engatava o noivado com um bem-sucedido empresário do ramo do aço para garantir a estabilidade social após sua mãe ficar viúva, e Jack, um artista miserável movido pelo espírito aventureiro vagava sem rumo em busca de uma oportunidade.
O filme transparece de modo muito convincente a luta de classes dentro do navio, mas, sobretudo, por ocasião do naufrágio, onde emerge o privilégio das classes abastadas em terem sua vida poupada da tragédia, ocupando os poucos botes disponíveis com seus corpos bem alimentados, enquanto aos demais a única escolha possível era entre o afogamento ou a hipotermia. A monetização da vida também se apresenta na tentativa de comprar vagas nos botes (cena protagonizada por Billy Zane interpretando Cal Hockley), cuja conclusão é o desvalor do poder diante da efemeridade da vida.
Nossa sociedade está navegando a todo tempo em navios que se acidentam nos abismos da sociedade capitalista – seja por ação humana, seja por causas naturais agravadas pela omissão humana. O Brasil, infelizmente, é experiente nesse aspecto, tendo passado pelos desastres de Brumadinho e Mariana, tentativa de extermínio dos povos Yanomami e deslizamentos em áreas de riscos, como em Petrópolis/RJ em 2022 e São Sebastião/SP em 2023, para ficar em poucos exemplos.
A tragédia é democrática, mas seus efeitos não. As colisões acontecem para toda a sociedade, mas as vítimas são indivíduos marcados, como povos originários, população negra e pessoas pobres. Para esses, no Titanic da vida real, nunca há botes suficientes.
Esse pequeno texto é um convite para o leitor que por ventura, ao ver o filme, tenha se dedicado a apreciar somente o romance da trama, para que estenda sua reflexão para os naufrágios da vida real e os privilégios acessados apenas por uma pequena parte da tripulação, enquanto outra só embarca no navio pela porta de serviço, para permanecer no porão ou trabalhar nas caldeiras e, ao fim, não ter socorro à sua vida. É um convite para, tal como fez Rose, ter uma postura transgressora numa sociedade em que o capital se sobrepõe à vida humana. Precisamos rever o filme e, também, rever nossa sociedade naufragada.

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