Anos de Chumbo – Tiros no alto da serra

João Teixeira*

Nossa história recente está por ser contada. Não só porque as classes dominantes, os donos do poder, sabem destruir arquivos que comprovam seus crimes. As oposições também camuflam suas ações.
Parte considerável dos meios de comunicação jogam o jogo da burguesia, manipulando a opinião pública, acobertando a realidade a que todos buscamos.
O distanciamento dos fatos clareia as análises e interpretações, como o Sol dissipa as nuvens da tempestade, esfriando os espíritos que açulavam os ânimos de paixões incendiadas.
Vimos como parte da Imprensa – a revista O Cruzeiro, de circulação nacional, a maior do País nos anos 1960 – exarcebou a resistência armada dos Marinheiros do Movimento de Ação Revolucionária – MAR contra o Batalhão Humaitá, no litoral fluminense, em agosto de 1969.
Meia dúzia de armas e um rádio quebrado transformaram -se num arsenal de guerra. Inventaram a presença do capitão Lamarca na região do conflito. Escreveram o que quiseram, como quiseram, protegidos pela Censura a rádios, jornais e revistas.
A guerrilha também quase detonou um movimento no trecho paulista da Serra do Mar. Logo após o golpe civil-militar (1964/85), em Santo André, na região do ABC, estudantes fizeram o reconhecimento topográfico da área, os acidentes naturais, mananciais de água, trilhas e tudo mais.
Estudantes, trabalhadores e militares nacionalistas planejaram fazer eclodir lá a resistência armada aos generais.
Havia um arsenal de armas escondido no Centro Popular de Cultura (CPC) de Santo André.
“Não houve um Cristo que distribuísse as armas para o povo” – lamentava o jornalista Marcos Silva, da Ação Popular (AP), a esquerda católica.
Os órgãos de segurança detectaram a estranha movimentação naquela área de segurança nacional.
Naquela época, um segurança do Departamento de Engenharia da Light and Power, Edson Teixeira de Souza, meu irmão, cuidava da Usina Henry Borden, que abastecia de energia as indústrias de São Paulo.
“Naquele tempo era fogo”.
Edson ouvia uns tiros no alto da serra e a movimentação de gente estranha na área. O agrimensor, jovem, atlético, escalava a Serra, desde São Bernardo até Cubatão, como exercício físico, engrossava as coxas, “comia melancia com casca e tudo”, entrando em forma para o combate.
Edson preparava-se física e psicologicamente para a guerra revolucionária, “ah, ia estourar mesmo, isso eu tinha certeza”.
Faltava escolher o lado de que estaria, Exército ou guerrilha? Qual lado defenderia? Esquerda ou direita?
A dúvida cruel mexia com os miolos do mano velho que vivia o clima da época, inseguro, instável, sujeito a chuvas e trovoadas, a população ameaçada pela violência militar.
Velhos tempos, bravos dias.
O pessoal da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR do capitão Lamarca, andava treinando tiro na região de refinarias e sistemas elétricos que abasteciam São Paulo.
Joaquim Câmara Ferreira pensou em explodir bombas naquela área estratégica.
O segurança Edson nunca subiu a Serra para conferir a mira dos atiradores.
As armas não foram distribuídas ao povo nem a guerrilha deslanchou na Serra do Mar.
O segurança Edson sobreviveu á guerra ideológica que sacrificou tanta gente. Outros não tiveram a mesma sorte.

Palavras-chave: golpe de 1964; resistência armada.

*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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