×

ERA CHUMBO: As proezas do Porquinho e do Lobo no começo de tudo.

ERA CHUMBO: As proezas do Porquinho e do Lobo no começo de tudo.

– João Teixeira (Colunista)

Alcides Cintra Bueno Filho, delegado mais que especial da extinta polícia política do regime civil-militar (1964/85), conhecido como Porquinho nos meios policiais porque vivia com os dedos e os bolsos da roupa lambuzados dos salgados que carregava, “era um devorador contumaz de coxinhas”, faleceu vítima de derrame fulminante, já aposentado, na casa de familiares, em Botucatu.
“Foi piedosamente sepultado nessa cidade com direito a missa de corpo presente, como convém aos bons cristaos” – o fim do Dr. Alcides Cintra Bueno, o Porquinho, foi descrito desta forma pelo jornalista e escritor Percival de Souza no best-seller Autópsia do Medo – Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury (Ed. Globo, 2000, pg 186).
O Dr. Alcides levou muitos segredos para o túmulo, o mais escabroso deles assim descrito:
“… o queixada-beato era o escolhido dos militares da repressão e que lhe confiaram o trabalho sujo de enterrar ás escondidas num cemitério da Grande São Paulo, as pessoas mortas nas violentas sessões de interrogatório do DOI/Codi e nos próprios porões do Dops, onde funciona a carceragem compartimentada em celas, corredores, porões, salões, cantos escuros fronteiriços com o páteo de manobras da Estrada de Ferro Sorocabana.
“Os cadáveres eram conduzidos num carro fechado da polícia paulista, sob forte escolta militar, no lugar onde seriam enterrados”.
“O cemitério mais utilizado era o de Perus, onde as vítimas eram sepultadas como indigentes e com identificação falsa”.
“Jamais se conseguiu saber a quantos cadáveres o delegado Alcides Cintra Bueno Filho deu cova rasa”.
“Fazia o sinal da cruz e balbuciava preces inaudíveis”.
“Não contou a ninguém se havia uma lista com os nomes verdadeiros dos mortos e a sua correspondência fictícia”.
A tarefa tétrica da sacrossanta criatura do Delegado Porquinho – lavava os corpos, enxugava-os, e cortava-os em partes costurando as cabeças de uns nos corpos de outros – foi revelada pelo repórter policial do Jornal da Tarde (JT), onde eu JT trabalhei com ele PS, nos anos 70, antes que a Comissão da Verdade/SP fosse a campo.
O delegado Porquinho, figura esdrúxula, baixo, mal vestido e atarracado, desenvolvia atividades que “a maioria absoluta dos delegados do Dops desconhecia”.
A mais espetacular delas, sem dúvida, foi ser o encarregado de presidir o inquérito sobre a morte do capitão Charles Rodney Chandler, executado por um comando armado da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), á saída de sua casa, na rua Petrópolis, no bairro do Sumaré.
O Porquinho encontrou -se com o Lobo neste episódio sangrento.
O Dr. Alcides mencionava a “reunião de um tribunal sinistro, presidido por Onofre Pinto, chefe da VPR, pelos chefes de coordenação do setor urbano e rural”.
“Estava selada a sorte da vítima Chandler”.
“Para sua consumação foram mobilizados todos os recursos humanos e materiais no que tange á efetivação da pena, que seria dia 8 de outubro de 1968, o primeiro aniversário da morte de Che Guevara e também por que se comemoraria a Semana de Solidariedade ao Vietnã”.
Chandler, acusado de ser membro da Central de Inteligência (CIA); de ter lutado no Vietná; e de ter colaborado na Bolívia na execução de Guevara, era suspeito de fazer levantamentos no Brasil.
O minucioso Delegado Porquinho descreveu assim a execução do oficial do Exército dos EUA que anunciou ao mundo que havia resistência armada aos generais no Brasil:
“No dia 12 de outubro de 1968, Pedro Lobo levantou cedo, preparou o carro marca Vokswagen, que havia furtado dias antes de uma residência (…), emplacado com a chapa 21-6729, furtada do páteo do Departamento Estadual de Trânsito pelo próprio Lobo quando servia no Batalhão de Trânsito da Força Pública”.
O guerrilheiro Lobo, então, colheu pelo caminho Marquito e Diógenes e montaram a emboscada.
O fusca bloqueou a saída do Chevrolet Impala, tipo rural, dirigido por Chandler, diante de sua mulher e seu filho.
Diógenes desceu desfechando-lhe 6 tiros e Marquito uma rajada de metralhadora do corpo inerte.
Lobo aproveitou e lançou “panfletos subversivos” escritos por um professor de português, o baiano João Leonardo da Silva Rocha, que lecionava no Instituto de Educação de São Caetano do Sul.
O professor João Leonardo, militante da VPR, foi exilado no sequestro do embaixador Elbrick, também norte-americano.
“O assassinato do comandante Che Guevara na Bolívia foi cometido por ordem e orientação de criminosos de guerra, como este agente imperialista Chandler, que praticou inúmeros crimes de guerra no Vietná e veio ao Brasil para preparar outros criminosos sob os auspícios do Pentágono dos Estados Unidos da América”.
“Brasil, Vietnã da América”.
“Criar um, três Vietnas, eis a palavra de ordem do comandante Che Guevara, que foi cruelmente assassinado por agentes imperialistas do nível deste Chandler,notório criminoso de guerra no Vietná e hoje punido e executado pela Justiça Revolucionária por seus crimes no Vietná”.
O panfleto fora impresso no “aparelho” da rua Fortunato 291, ap. 21, em Santa Cecília, que Marighella costumava frequentar.
Moída na tortura, Dulce Maia foi levada pelos policiais até lá, onde imaginava que o ap. Estivesse vazio.
Não estava.
Os policiais chefiados por um colega do Porquinho, o Dr. Bonchristiano, ficaram de tocaia e quando Marquito chegou foi abatido.

You May Have Missed