Coletivo Feminista Carolina Maria de Jesus: reação no meio acadêmico às falas que culpabilizam vítimas

Alunas e ex-alunas da UniFio formam unidade: “O coletivo é um movimento político que busca além do repúdio, buscamos mudança. Transformação!”

 

Juliana Neves

No final de semana, o Jornal Contratempo divulgou o vídeo do professor e coordenador do curso de Direito do Centro Universitário de Ourinhos (Unifio), Fabio Alonso, que é um trecho de sua aula de Direito Penal, no momento em que ele culpabiliza vítimas de estupro e de violência doméstica. Na segunda-feira (19), divulgamos uma reportagem especial com entrevistas de mulheres ex-alunas de Fabio, que relataram suas experiências em sala de aula com o professor na posição de estudantes.

 

RELEMBRE O FATO: https://contratempo.info/utilidade-publica/culpabilizacao-de-mulheres-vitimas-de-violencia-unifio-afirma-que-preza-pela-liberdade-de-catedra-do-corpo-docente/ 

 

REPORTAGEM ESPECIAL: https://contratempo.info/cidade/quando-soube-dessas-falas-de-um-professor-de-direito-ja-sabia-que-era-ele-ex-alunas-falam-sobre-o-caso-da-unifio/ 

 

Como reação ao ocorrido, surge no meio acadêmico o Coletivo Feminista Carolina Maria de Jesus, como forma de repúdio aos exemplos utilizados pelo professor em aula, bem como pelas notas de “esclarecimento” divulgadas pela Unifio. Até o momento, o coletivo é composto por estudantes e egressos da universidade dos cursos de Administração, Artes, Arquitetura, Biomedicina, Ciências Contábeis, Direito, Enfermagem, Farmácia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia e Psicologia.

Conversamos com quatro representantes do coletivo que optaram por não serem identificadas por temerem pela retaliação e perseguição dentro e fora da instituição.

De acordo com J.S, estudante de psicologia, 20, o coletivo se tornou necessário em razão da Unifio não ter um cunho feminista. “A gente decidiu juntar nossas forças e criar o coletivo por conta de tudo que estava acontecendo, no início da noite de sexta-feira, 16, éramos em dez cabeças pensando em ações e como convidar mais mulheres para fazer parte disso tudo. No fim da noite, éramos já em 35, na manhã de domingo já estávamos gigantes com mais de 100 mulheres fazendo parte do nosso coletivo que ganhou o nome de Carolina Maria de Jesus. Nosso objetivo agora de início foi repudiar as falas machistas e misóginas do professor Fabio e pressionar a Unifio a soltar uma nota séria, pois os exemplos usados ferem a integridade da vítima de violência sexual. São exemplos desqualificados, que contribuem para a cultura do estupro, então precisamos que a universidade tome uma medida comprometida em relação a isso, o que não aconteceu até agora”, explica J.S.

Perfil no Instagram do coletivo
Primero post do coletivo (Foto: print perfil do Instagram)

Portanto, tendo em vista o cenário atual, o coletivo também será um canal de denúncias a qualquer outro tipo de comportamento semelhante dentro da instituição de ensino. Denúncias de assédio e outras violências contra a mulher para que seja uma rede de apoio entre estudantes e ex-estudantes da Unifio. Além da intenção de iniciar “um grupo de estudo para que nós possamos crescer e evoluir juntas como mulheres, mas no momento nosso principal foco é pressionar a Unifio para que tome medidas cabíveis. Hoje, estamos em quase 200 mulheres e somos em oito representantes. E já tivemos uma reunião on-line para pensar nas movimentações que iremos fazer ao decorrer dessa semana em forma de protesto ao silêncio do centro universitário em relação ao ocorrido”, relata a estudante de psicologia.

Desta forma, o nome escolhido para o coletivo, Carolina Maria de Jesus, há um significado especial e muito representativo. Porque este nome é de uma das primeiras escritoras negras do país, sendo reconhecida como uma das mais importantes do ramo da literatura brasileira. Afinal, Carolina retratava as realidades do país, inclusive a violência contra a mulher. E o marco da criação do coletivo foi a divulgação de uma Nota de Repúdio no perfil do Instagram há dois dias. 

“Dentro do curso de psicologia aprendemos sobre a cultura, como ela pode interferir no comportamento do sujeito sobre a sua subjetividade que é construída pelas relações sociais perante uma visão marxista. […] Então, tendo essas noções, podemos compreender como se dá a cultura do estupro e porque certos tipos de falas, como a do professor, dão abrangência para que reforce essa cultura e comportamentos violentos. […] Repudiar as falas do professor perante o meu conhecimento é não abrir brecha para o genocídio”, afirma J.S.

Para outra representante do coletivo, M.P, 21, que escolheu a não identificação também por ser estudante do curso de direito, a criação do coletivo é marcante para a sua vida, por representar uma conquista diante do fato atual e pelo conflito vivenciado contra a Unifio. “Apesar dessa conquista, ainda temos que ganhar a batalha. Sendo nós, estudantes, a parte mais fraca da força política contra a instituição de ensino, concretizar nessa instituição uma organização política torna nossa voz mais potente”, fala a estudante.

De fato, no meio acadêmico da Unifio sempre foi difícil ter a mobilização concreta dos estudantes, mas espera-se que os estudantes ganhem mais autonomia e força política. Além, segundo M.P., que a instituição entenda que sempre haverá mulheres unidas batalhando e que ninguém poderá calar a voz do coletivo

Para a estudante, o desejo é um só: “vida longa ao coletivo, que represente um marco para lembrarmos que estudantes unidos jamais serão vencidos. […] Pretendo sempre participar de organizações políticas de movimentos sociais, lutando por todas as minorias. Espero que eu consiga fazer do Direito uma ferramenta que visa a igualdade e liberdade”, pontua.

A advogada e egressa, L.T.S, 25, relata que sempre foi uma vontade de várias ex-alunas, alunas e professoras a criação de um coletivo feminista, mas não havia forças suficientes para a conquista. Os motivos era o receio de represálias e a própria falta de oportunidade. 

“Dessa forma, a polêmica envolvendo as falas machistas e inadequadas (eis que não são mais admitidas pela doutrina moderna e entendimentos jurisprudenciais já consolidados), do professor do curso de Direito, foi propulsora para unir muitas mulheres ligadas à instituição, que se sentiram feridas com tal conduta e que ao dialogarem, uma acolhendo a outra, perceberam o quanto o exemplo dado refletia na cultura do estupro e em situações múltiplas de violências por elas sofridas. […] Como advogada e egressa, que acompanha a luta e sobrevivência diárias de tantas mulheres, nas mais diversas situações de vulnerabilidades e áreas da vida, e por já ter sofrido pessoalmente com o machismo nesses ambientes, fico completamente emocionada com os atos e esforços exercidos por essas mulheres, muitas tão jovens, dentro do Coletivo. Assim, vejo que esse será um mecanismo potente de mudança social, desconstrução e evolução”, expõe a advogada.

A advogada reforça que o assédio na área acadêmica é um grande desestimulador de mulheres. Inclusive, há pesquisas que apontam que universitárias já foram violentadas por terem rejeitado investidas nas dependências e eventos relacionados as universidades. Portanto, “com a aliança de ideias e projetos de alunas […] será possível ir além e transformar a vida de muitas mulheres, das mais diversas classes sociais, econômicas e etnias e crenças, empoderando-as e trazendo maior consciência de seus direitos e de medidas que possam facilitar suas vidas”, observa a egressa, L.T.S.

Salvo que a L.T.S. acredita que não haverá censura interna por parte da Unifio em relação ao coletivo, em razão da grande movimentação das integrantes, pelo apoio que receberam de alguns professores, pela participação de egressos no movimento e pela forma que a instituição se posicionou. Entretanto, qualquer ação e/ou atitude feminista incomoda, pelo fato de o machismo ser estrutural. 

É importante salientar que o coletivo, Carolina Maria de Jesus, também é contra qualquer linchamento virtual, ofensas, ameaças e reproduções de discursos de ódio “e, muito maior que essa ação inicial, o Coletivo foi criado para fortalecer a união feminina e criar mecanismos de combate às formas de violência contra a mulher”, ressalva a advogada.

Para outra representante estudante de psicologia, M.C. M., 21, em sua opinião, o coletivo é importante por repudiar qualquer fala, ação misógina e sexista, ainda mais por mostrar para a sociedade, em geral, a importância das mulheres não se calarem e se apoiarem. 

“[…] A reunião da força da mulher gera grandes impactos, até porque esperam de nós sempre a rivalidade feminina, o contrário espanta! […] O coletivo é um movimento político que busca além do repúdio, buscamos mudança. Transformação! O meio acadêmico não é espaço para posturas misóginas e sexistas. Além disso, o coletivo tem sido e se propõe a continuar sendo um local de muita escuta”, assegura a estudante.

 

Relatos pessoais

A divulgação do vídeo do professor e coordenador, Fabio Alonso, causou comoção pessoal, com uma característica particular em cada mulher que soube do fato, proporcionando sentimentos diferentes em cada uma, mas de repulsa. 

Sendo assim, a estudante de direito, M.P. esclarece que os dizeres do professor durante a aula causou repulsa e gerou gatilhos psicológicos. “Como estudante de um curso de Direito, aluna do Professor em questão, mulher e feminista os exemplos utilizados pelo professor em aula me causou repulsa e gerou gatilhos psicológicos. Nós mulheres sabemos como a opressão de gênero se dá no dia a dia. Deixamos de fazer muita coisa devido a cultura do estrupo. Evitamos andar sozinha, aceleramos o passo e muitos outros exemplos poderiam aqui ser citados. Ver um professor em sala de aula culpabilizar a mulher pelas violências contra essas praticadas é doloroso e repugnante. Principalmente, porque a fala é feita em um ambiente acadêmico e tem um tom de legitimar uma cultura patriarcal de opressão, desviando o foco do verdadeiro alvo da conduta: o violentador. Portanto, ser estudante de uma instituição que ainda não se posicionou de acordo é revoltante! Em outros momentos professores foram demitidos por outras razões menos relevantes. E agora? Esperamos respostas! E Precisamos dessa resposta para saberem que temos VOZ dentro da UNIFIO”, conclui a estudante.

Para a M.C.M, do curso de psicologia, contou ter sentido diversos atravessamentos como mulher pelo professor ter utilizado de exemplos que violam as mulheres ao reproduzir um discurso que mata e violenta no cotidiano. “Enfim, me causou angústia, um pouco de desespero, me senti desrespeitada, violentada e, realmente, com medo do que foi dito, do local que foi dito (numa aula gravada, sem pudor algum) e dos reflexos na sociedade, afinal, ele forma futuros advogados, promotores, juízes etc”, comenta a estudante.

E, a outra estudante de psicologia, J.S, semelhante à sua colega de curso, destaca que o vídeo lhe proporcionou gatilhos e indignação pelo professor tratar o assunto com tamanha naturalidade e nem sequer pensou em pedir desculpa pelo ocorrido.

“Vou usar um exemplo fácil de ser compreendido, em nossa sociedade temos amoladores de facas, que são aquelas pessoas que fazem piadas, usam exemplos desnecessário em tom de brincadeira como o exemplo dado pelo Fabio Alonso: “quem é mais fácil de estuprar, a freira ou a menininha de cinta larga?”. Digo que este é um amolador de faca, pois dá espaço para aqueles que querem enfiar a ‘faca’ em nossos corpos e se justificarem nos culpando por nosso comportamento e nossas roupas. Não devemos dar espaço para esses amoladores de faca uma vez que reforçam com seus discursos a cultura do estupro, o feminicídio e tantas outras violências contra a mulher”, sintetiza J.S.

Por fim, de fato, vivemos em um mundo que as mulheres compreendem e colocam em prática a sororidade, apoiando e lutando em união por todas as causas para defender as mulheres e combater qualquer tipo de violência. Isto é, de acordo com a advogada, “como diz uma frase muito usual: A revolução será feminista ou não será!”.

Juliana Neves

Escrevo com a intenção de mudar o mundo ofertando a verdade para a sociedade. Mas a luta é diária e constante, realmente, vivendo e aprendendo e tendo o jornalismo como meu aliado.