“Napoleão” (2023): Por que um filme histórico incomoda tanto os historiadores? – Por Bruno Yashinishi

Se esse texto fosse um artigo científico escrito para revistas acadêmicas deveria constar, após o “Resumo” e o “Abstract” pelo menos três palavras-chave. Essas palavras seriam “Napoleão; Marc Ferro; Cinema-História”. E justamente essas palavras, não necessariamente nessa ordem como veremos, que serão as chaves de escrita e leitura para esse texto.

Comecemos por Marc Ferro (que é um nome próprio e não uma palavra propriamente dita). O historiador francês Marc Ferro (1924-2021) foi um importante membro da terceira geração da “Escola dos Annales” e um dos maiores intelectuais contemporâneos. Em seu monumental livro “Histoire de France”, o autor dedica algumas poucas páginas à figura histórica de Napoleão Bonaparte, com menos entusiasmo do que se poderia esperar de uma biografia da França. Ainda assim, Ferro aponta que Napoleão fascinou de tal maneira os homens do século XIX que é difícil saber que imagem dele se impõe.

Bom, a primeira palavra chave (agora segunda) surgiu no parágrafo anterior. Quem afinal foi Napoleão Bonaparte ? Nesse ponto convido ao leitor para um pouco mais de atenção à clivagem que farei entre o Napoleão histórico e o Napoleão cinematográfico. O primeiro, ex cônsul e imperador francês, repleto de conquistas militares invejáveis, mas ao mesmo tempo de batalhas deploráveis e derrotas amargas. O segundo, personagem histórico que povoa o imaginário popular, cultural e artístico há pelo menos mais de um século e repleto de virtudes heroicas e fictícias (tal como preconizava Maquiavel).

Certamente, o leitor já presume que se tratam de “dois Napoleões”, um da vida real e outro da ficção. Se concluíssemos aqui, estaríamos sendo pedantes demais em tratar de um fato recente que apresenta um problema antigo entre os historiadores e os chamados filmes históricos. Recorremos então a nossa terceira palavra-chave: Cinema-História. Consequentemente, temos que retomar Marc Ferro como chave de interpretação nesse momento, pois foi o mesmo historiador francês quem inaugurou nos anos 1970 a tendência historiográfica de tomar filmes como documentos e fontes legítimas para o estudo e escrita da história.

Para Marc Ferro, todos os filmes, sejam baseados em acontecimentos, processos, fatos históricos, personagens reais ou, então, puramente ficcionais, podem ser tomados como parte do ofício do historiador. Evidentemente, como todo tipo de fonte histórica, os filmes requerem uma atenção minuciosa dos historiadores, pois não são a imagem ou reflexo da realidade, mas antes construções desta, representações, criações artísticas que, na melhor das hipóteses, sugere um efeito de virossimilhança histórica. Nesse sentido, os filmes históricos permitem lapsos, o que Ferro chamava de contra-história da sociedade.

Usamos essas três palavras-chave, de forma simples, mas maliciosa para ilustrar um fenômeno que está acontecendo com a recepção, em boa parte negativa, de historiadores ao novo filme de Ridley Scott, “Napoleão” (2023). Essa é mais uma superprodução do diretor que, em seus 85 anos tem grandes clássicos do cinema no currículo, tais como “Alien” (1979), “Blade Runner” (1982), “1492: a conquista do paraíso” (1992) e “Gladiador” (2000), por exemplo. O roteiro é do americano David Scarpa e o elenco traz Joaquin Phoenix, como Napoleão e Vanessa Kirby, como Joséphine.

A malícia que se esconde nesse texto e em suas chaves interepretativas é que a discussão principal não é sobre o filme “Napoleão», nem sobre a história do personagem Napoleão, tampouco sobre a história da história de Napoleão (esta dos historiadores). O que está acontecendo com relação ao filme é a importantíssima tensão entre produtor e espectador, entre quem faz e quem assiste ao filme : « A que público o filme está destinado e por quem ? Qual o compromisso entre ficção e realidade em um filme de fundamentação histórica ? O filme falseia a história oficial ou corrobora com ela ? », entre outras questões podem elucidar melhor o que estamos tentando dizer.

Os historiadores estão de mal com o filme Napoleão por incriminá- lo pelo grande crime do anacronismo. Entretanto, o filme também está de mal com a história acusando-a do mesmo pecado. As brigas entre cineastas e historiadores é tão antiga quanto a própria relação cinema-história. E são estas brigas que se tranforam em objetos de estudos de cinema em história e de história em cinema.

Na verdade, o problema dos historiadores com os filmes históricos está na questão das narrativas!

A narrativa histórica é a forma de apresentação do conhecimento histórico dos indivíduos que se dá através da comunicação explicativa, onde se torna decisivo que o passado possa tornar-se presente vinculado com a questão da experiência. O que se pode entender por explicação em História é justamente um emaranhado de postulados que o historiador deve organizar para a efetivação do conhecimento histórico, tornando-se um empirista ao se engajar em relatar o fato concreto da história. Essa organização do conhecimento que suscita a consciência histórica se dá através da narrativa histórica.

A narrativa cinematográfica pode ser entendida como aquela que organiza a relação de um acontecimento ou a sucessão de acontecimentos dentro de um filme. Entretanto essa narrativa estrutura-se levando em conta a linguagem cinematográfica, pois se ela é responsável pela organização estrutural de se contar uma estória ou história dentro de um filme deve consequentemente respeitar a linguagem própria deste meio que comporta uma singularidade nova e particular quanto à cultura midiática da contemporaneidade.

Após a reflexão feita sobre a questão das narrativas em suas especificidades, tanto a História quanto o Cinema podem ser considerados como discursos. Essa semelhança faz com que, dentro da relação cinema-história, a possibilidade da história no cinema se efetive. Isso significa que o cinema pode ser tratado como um produtor de “discurso histórico” ou como “intérprete do passado”, ou seja, o cinema é capaz de trazer em si uma visão sobre a história, seja através da tentativa de representar um determinado fato ou tempo passado ou sobre a captação do tempo presente de sua produção.

A História aqui se manifesta no cinema através de uma narrativa histórica própria utilizando de elementos particulares da narrativa cinematográfica de seu tempo, com seu contexto econômico, político, social, poético, artístico e, obviamente, comercial. Esse é um desafio ainda latente e uma resistência aos que se dedicam a estudar as possíveis relações entre cinema e história. Esperamos que Napoleão nos traga boas batalhas vitoriosas nesse gelo acadêmico.

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